segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

TUDO AZUL COM ZUZU


Era uma vez um menino azul. Azul, retinto e insolúvel...

Amava as águas, o céu e tudo que fosse azul. Enlouquecia de vontade de usar outras cores, mas o que era seu era azul... Havia azul demais na vida de Zuzu. Ele achava que só o azul era bom... Vivia quieto em seu mundinho azul, vestido de índigo, dormindo em uma cama azul com lençóis azuis, travesseiro azul, abajur azul com lâmpada azul... E sabe que cor era seu quarto? Pois é... Azul!

Era um menino de poucos amigos. As crianças de outras cores pareciam ser de outro mundo...E quando se olhava no espelho achava que nunca teria um amigo parecido...Zuzu era muito inteligente e feito de um complexo furta-cor de azuis, mas só conseguia brincar sozinho, porque apenas ele sabia o nome de cada uma de suas coisas azuis... Olhar azul profundo, sorriso azul piscina, cabelo azul royal, as mãozinhas azuis claras, idéias azuis de todos os tons. Tempestades azuis. Manhãs azuis...

Essa era a vida de Zuzu... Mudava de azul segundo luz, umidade e pressa... Ao sol parecia feliz. Em dias de chuva resmungava opaco pela casa. E se atrasasse ficava azul de raiva...Caminhava vestido de azul cobalto pelas ruas. Sonhava azul cerúleo, acordava azul anil, mas sua vida era um imenso azul escuro... Era a tal solitude: o menino azul tinha que se bastar porque o medo da solidão não era azul, mas noite quase negra...Então, para não se sentir sozinho, vivia cercado do que achava seguro. Para Zuzu, seguro era o azul...

Construiu uma fortaleza azul marinho para viver, mas lhe faltavam outras cores encantadas... Por natureza, por princípio, por medo, que importa?, não conseguia fazer nada de outra cor.Carregava seus azuis pela estrada, maravilhado com cada novo tom que descobria em si...Imaginava como ficaria sua cor ao lado de outras, mas não se diluía, não: apenas irradiava! E com isso, até ficava contentinho, mas queria mais...

As pessoas reparavam. Sorriam para ele e diziam, boquiabertas - Que azuuul lindo!
-Quanto azuuul! - Ah... Eu quero um pouco desse azul!

O menino, azulado de tão tímido, acenava, retribuía os sorrisos e mergulhava de volta em seus azuis, triste porque queria outras cores, mas não conseguia partilhar o azul... A vida de Zuzu não era azul como ele queria. E ele precisou se conhecer, saber quem era e descobrir como venceria aquele  medo azul marinho de trocar cores.

Até que, de tanto conversar com seus botões azuis, descobriu que por mais orgulhoso que fosse do que era seu, era amoroso demais para ficar com tudo só para si...

Saiu pelas ruas à procura de outras crianças...Apanhou um toco de giz amarelo e pintou manchas nas mãos... Vestiu um boné cor de abóbora e um par de tênis brancos. A vontade de partilhar era tão grande que foi tingindo as coisas aqui e ali, e aprendendo coisas de outras cores... A lambida no sorvete vermelho ficou roxa...A parede caiada onde se encostou virou céu...

As cores pareciam ter nascido naquele dia... Zuzu encontrou uma bicicleta esverdeada e a transformou em turquesa... E o menino azul pedalou pelo bairro até encontrar um menino amarelo: construíram uma linda amizade verde... Trocaram cores, idéias, brinquedos... Foram juntos ao parque e conheceram uma menina vermelha. Brincaram juntos até a alegria ficar laranja, violeta e reluzir naquelas cores que os que têm amigos conhecem... Enquanto brincavam, surgiu um cachorro branco que terminou a brincadeira todo colorido. À tarde foram para a praia e festejaram os rosas, cinzas e lilases do sol dando adeus. Afinal, o que eram, tinham e sabiam podia ser trocado com os outros.

Contemplando todas aquelas cores, Zuzu sorriu porque percebeu que ficar só era uma escolha, bastava que ele quisesse e voltaria para dentro de seus azuis... Mas nunca mais se fechou em uma só cor... Sentia uma paz enorme porque sua vida, afinal, era toda colorida!

Nenhum comentário:

Postar um comentário