segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DE VOLTA PARA CASA


Havia uma cidade feita para ser bonita. Bem do gosto de quem morava lá. Cheia de casas bonitas, jardins bonitos... Carros bonitos... Lojas bonitas, cheias de coisas que também eram feitas para ser bonitas...

Quer dizer... Uma parte da cidade era assim...

Em um bairro todas as casas eram bonitas. No outro, mais ou menos. No bairro ao lado, poucas casas eram mais ou menos bonitas... E em outro bairro, na mesma cidade, havia lugares onde as pessoas eram bonitas, tinham sonhos lindos como todas as outras: mas moravam em casas que todos achavam feias porque eram feitas de materiais achados pelas ruas...

Veja só, quanta gente sonha ter uma casa bacana? Mas nem todos têm! E sabe o que mais? É sempre bom perguntar: o que é uma casa bacana?

Enquanto muitos falam em salvar o planeta morando em casas feitas de materiais novos e caros, muita gente recicla material para construir suas casas... E depois, dizem que o povo não sabe de nada!

A verdade é que cada um mora como pode e onde pode. Legal é a casa da gente... É por isso que muita gente quer levar a casa junto quando viaja e esquece que cada lugar tem seu jeito.

Está escrito nas leis que todos têm direito de morar bem... E o que todo mundo quer é que o lugar onde mora seja legal! Fala sério, morar é uma questão de se sentir bem em casa e nas redonzezas!

Uma casa, para ser boa, deve funcionar do nosso jeito. Senão, a gente não vai querer ficar nela... E a mesma coisa acontece com a cidade onde a gente mora, estuda, trabalha... Se não for gostoso viver nela... Xiiii!

Será que é por isso que todo mundo quer ter sítio e casa de praia?

A casa tem que ser: gostosa! Tem que ter a sua cara. Não tem que ser como aquelas de filme. Mas é bom que seja segura, coberta, seca, ventilada e que tenha um bom espaço, pelo menos pra gente se alongaaaaaar e poder se esparramar nos dias de chuva...

Outra coisa importante que falta na maioria das casas é espaço para plantar. Conviver com plantas melhora muito a vida da gente.

Quem gosta de casa divertida, mora em casa divertida. Quem gosta de casa séria, tem que morar em casa séria...

Quer dizer... Quando dá!

Mas conheço meninos e meninas super divertidos que moram em casas sérias demais. E pais que são sérios demais para morar em casas divertidas...

Acho, sim, que casas deviam dar menos trabalho e mais diversão... Diversão, principalmente para as crianças e jovens, porque tem gente que não entende que crianças e jovens não têm que ser sérios...

Psiu! Os adultos também não precisam ser sérios o tempo todo, não!

Antigamente as casas davam trabalho, mas as pessoas tinham mais tempo para cuidar de suas casas, pintar muros, cuidar do jardim, plantar algo na horta, brincar e até fazer festas estreladas no quintal; isso, naquele tempo em que todas as casas tinham quintais e o muro do vizinho ficava láááá atrás...

Na falta de quintais, tem que haver parque ou mata por perto: só cimento não dá! A gente se sente no deserto! No cimento, nenhuma semente germina... E nós precisamos conviver com plantas... Por isso, áreas livres e parques são muito importantes para a saúde das pessoas...

Ahhh, que coisa boa! Poder ver longe... Passear entre as árvores... Deitar na grama... Curtir uma sombra gostosa numa tarde quente... Um programa cultural. Áreas verdes são tudo de bom, não é?

Sabe? Cidade boa é cidade pensada para todos...

Mas todos, quem?

Porque, se a cidade fosse feita para todos, devia ter mais espaço para gente que para os carros.

Nem todos têm carros. Aliás, quem tem é uma minoria... Mas a maior parte do espaço das cidades é dos carros. E tem tanta gente mais preocupada com carros que com pessoas que começo a pensar se não estamos em desvantagem.

Carros não precisam fazer ginástica, não namoram de mãos dadas nem passeiam de bicicleta. Carros não levam cachorro pra fazer cocô... Carros são coisas! E a cidade é para pessoas!

A cidade é feita para pessoas com carro e pessoas sem carro!

E se as cidades fossem mesmo feitas para as pessoas e não para os carros?

Já parou para pensar como seria uma cidade sem os automóveis? Teria mais áreas verdes e de lazer, ou mais cimento e mais asfalto? O que você acha?

Imagine só... Uma cidade com menos automóveis? Mais bicicletas, skates, patinetes e crianças por todos os lados? Já pensou? Não? Então pense!

E que tal mais ônibus e metrôs com lugar para sentar, sem atrasar com o trânsito dos carros? Transportariam mais gente, com menos combustível, menos poluição, ocupando menos espaço na sua cidade... E não é que acaba sendo mais seguro andar de condução que de carro?

De carro é mais divertido? Hummm... Não sei, não... Quando viajo de ônibus com minhas filhas curtimos, conversamos e brincamos o tempo todo e eu não preciso me preocupar com a estrada. Além de tudo é mais seguro e barato!

Olha quanto espaço os carros precisam na cidade, fora o espaço das garagens, e o espaço dos estacionamentos, o espaço das rampas, o espaço das oficinas, o espaço dos postos de gasolina, o espaço das vagas na padaria, o espaço nos bancos, o espaço nos supermercados... Ufa!... E quando a gente quer andar, tem que ficar trançando o caminho entre eles, não é?

Puxa... Tem gente que tira o carro da garagem só pra ir até a esquina... Ih, ih, ih... Deviam andar mais, para deixarem de ser barrigudos!

Mas a tal cidade de que falávamos...  Era uma cidade feita para ser segura, lembram? Porque as pessoas que nela moravam achavam que morar no mato era perigoso... Sei lá, de repente, podia ter cobra, lagarto, tatu, paca... Cotia, não...

Mas podia chover e tudo virar barro. Podia cair árvore com raio. Podia até ficar longe de tudo.  Vai ver, foi por isso que começamos a morar tão apertado, muro com muro, apartamento sobre apartamento, janela de cara com janela. Argh! Que sufoco!

Será que foi mesmo pra viver em segurança que as pessoas inventaram as cidades?

Olhe... Não sei se foi por isso... Mas sei que no começo tinha mais mato que casas. Aí, começaram a tirar o mato e construir mais casas. E de um monte de casas começaram a fazer ruas. E juntando as ruas, fizeram bairros, daí, já viu, né? As cidades cresceram tanto que agora uma cidade fica dando cotovelada na outra!

E as plantas, coitadas, escaparam para os vasos da vovó; e cada pedacinho do mato, todas as plantas foram arrancadas para construir cidades... Isso, sem falar nos bichos: os passarinhos, cobras, lagartos, pacas, tatus -- e cotias também --, foram todos embora. Porque a idéia era essa mesmo: bicho tinha que morar longe de gente.

Mas no começo não era tão ruim. Afinal, cada casa tinha um quintal. Em cada quintal, uma ou outra árvore. Um cachorro esperto. Uma tartaruga. Às vezes, uma horta. Um galinheiro. Um canteiro cheio de flores... Uma moça linda na janela...

Quando as cidades eram pequenas, todo mundo se conhecia: - Boa tarde, seu Joaquim!

Não havia prédios.  E não havia elevadores apertados pra gente ficar com cara de uai pro vizinho, olhando os andares subindo e descendo...

Tinha poucas ruas e as pessoas não tinham medo, não... Esse medo que têm hoje, não!

Com o tempo, tudo começou a mudar...

E cada vez vinha mais gente morar nas cidades. E aí, as ruas estreitas onde passavam os cavalos e charretes, começaram a ficar largas para os carros e caminhões passarem.

Em cada casa e loja tinha que ter um lugar para o carro também. E quanto mais gente chegava, mais carros, mais postos de gasolina, mais garagens, mais oficinas, mais estacionamentos, mais semáforos: - ih, parem de buzinar! Esse trânsito não anda, não?

Antigamente... Na cidade havia de tudo um pouco. Havia casa bonita. Casa mais ou menos... Havia mercearia. Havia tintureiro. Havia afiador de facas tocando gaita e velhinho batendo matraca pra vender biju... Havia casinha de correio e tinha pharmácia, assim mesmo, com ph... Além de tudo isso... Passava o homem do realejo... Como assim, o que é realejo? Pesquise na internet!

Outra coisa legal é que nos bairros havia ruas de terra. Havia quitanda, avícola e a vendinha do seu Queiróz... E as pessoas compravam poucas coisas, porque precisavam de poucas coisas para serem felizes.

Você sabia que -- não faz muito tempo, não -- as casas, tinham poucas tomadas e nem tinha tanta coisa para ligar, viu? É que naquele tempo, conforto era outra coisa... E esse monte de máquinas que temos hoje não existia... Do jeito que vai... Logo inventam um descascador eletrônico de bananas, já pensou?

E foi por causa dessa idéia de que conforto é não ter que fazer as coisas... Que muitas coisas foram ficando desconfortáveis nas cidades.

Mas o pior não é isso, não... O pior de tudo é que as pessoas acharam que poder comprar tudo que queriam era a felicidade...

Legal, poder comprar o que precisamos... Mas será que isso é a felicidade? A gente come coisas? Coisas são carinhosas? Plástico e lata são como amigos? Salgadinhos amam a gente? Carros dão de mamar? Eletrodomésticos abraçam?

As cidades cresceram tanto, tanto e tanto... Que juntando casas, ligando ruas e unindo bairros, uma cidade foi encostando na outra e acabaram se tornando as imensas manchas de luz que vemos nas fotos de satélites. Cidades que não dormem. Não descansam. Não pensam em pôr-do-sol.

Pelo satélite, que também não dorme, vemos cidades insaciáveis onde anormal é ser poeta!

E não para de chegar gente... Gente achando que vai encontrar segurança, trabalho, qualidade de vida; gente querendo ter coisas e buscando formas de ganhar mais dinheiro para ter mais coisas e mais carros para andar, e mais roupas para vestir, e mais tomadas para ligar... São tantas coisas para fazer que a cidade – faminta e incontrolável – precisa comer o tempo de todo mundo para poder crescer mais e mais e mais...

Mas não foi sempre assim... As coisas começaram a complicar mesmo quando os construtores, apostando no crescimento das cidades, começaram a empilhar as casas, umas sobre outras na forma de prédios.

Construíram um edifício aqui, outro lá... Surgia outro no horizonte... E outro, ainda mais distante... E logo um bate-estaca estremecia a vizinhança toda...

De repente, a cidade já tinha muitos edifícios... Em cada um muitos carros... Imagine só? Num lugar onde cabia uma casa com uma família, um quintal, uma garagem, um esgoto, um lixo, um carro, um cachorro... As pessoas derrubavam a casa e construíam uma torre para quarenta famílias!

Só que, com o tempo, começaram a derrubar cada vez mais casas e fazer prédios. Construções maiores, conjuntos de prédios, prédios com jardins e piscinas e garagens e academias e churrasqueiras... E prédios bonitos, edifícios feios, edifícios esquisitos, edifícios tortos, quadrados: edifícios cheios de gente...

Vai ver por isso os quintais foram sumindo. As moças saíram das janelas. Os pomares e canteiros foram cimentados. E ao invés de regar as hortas, cada qual só queria arrumar um jeito de lavar seu carro, guardar suas coisas e comprar sua comida no supermercado!

Passarinho? Um ou outro... E olhe que eu sei de gente que põe pedaços de frutas na janela até hoje e espera!... Mas as cobras e lagartos sumiram de vez! As pacas fugiram para tão longe que a gente só tem notícias delas nos livros, onde os tatus, quatis e gambás também foram morar... E as cotias? Só sabemos de uma que virou nome de cidade perto de São Paulo. O resto, nunca mais ninguém ouviu falar...

Foi numa cidade assim, onde cada edifício tinha dez, quinze ou mais andares, e cada andar tinha muitos apartamentos, e cada apartamento tinha fogão, geladeira, televisores, computadores, telões, batedeiras, liquidificadores, descascadores de bananas, móveis, prateleiras, esteiras, luminárias, enfeites, coisas, coisas e mais coisas... Que aconteceu algo muito especial...

Era domingo de manhã, logo depois do café, Lúcia, uma garota inteligente que só, começou a tagarelar:

- Mãe, desde que voltamos do sítio do vovô tenho pensado em algumas coisas beeem legais...

- Como assim, filha?

- As coisas são muito diferentes fora da cidade, né? Parece que até o tempo demora mais para passar... Aqui é legal... Tem minha escola, meus amigos... Mas tem umas coisas que não dá pra encarar. É muita sujeira, muito barulho, muita gente...

- Lú, é por isso que vamos sempre para o sítio...

- Mãe... Por que o gosto da água daqui é tão ruim? Por que é que a gente tem que comprar água pra beber? Lá no vovô a água da bica sai na torneira! E é uma delícia. Eu fui com ele até o pé da serra e vi a nascente. Fica no meio de umas pedras. É a água mais gostosa que já bebi...

- Eu sei filha... Passei a infância bebendo essa água... É uma delícia mesmo! E seu avô cuida daquela nascente como se fosse a coisa mais preciosa do mundo... Ele sempre disse: tendo água boa, o resto vai!

- E por que a gente não vai morar lá?
- Filha... Nós precisamos trabalhar e você tem a escola. Lá não tem nada pra fazer e fica muito longe de tudo. Imagine só?... Teríamos que pegar estrada todos os dias para trabalhar aqui. E você sabe que lá não tem internet! Você vive sem computador?

- Eu sei de tudo disso, mãe... Mas não sei se gosto da cidade... Sei lá... É um ar pesado, tem o problema da poluição. Da violência. Não tem espaço. Todo mundo tem medo de ficar na rua. Não tem espaço nem pra todos os carros...

Vocês vivem presos no trânsito e demoram a chegar em casa.A gente conversa pouco, quase não se vê...Ontem eu falei mais com o papai pelo computador que em casa. Quando ele chegou eu já estava dormindo.

- Sei, Lú, mas daí a morarmos no sítio?

- Pelo menos lá é casa, mãe. É sossegado.  Apartamento não é a mesma coisa. Quando a gente morava em casa era bem melhor. Tinha espaço, plantas, quintal, e você plantava todos os temperos, lembra? Aqui não tem espaço nem para as crianças menores brincarem... E a gente, fica onde? De repente, o parque mais próximo, só dá pra ir de carro... As árvores das ruas estão cheias de óleo, fuligem, poeira, gasolina, não dá pra subir nelas...

- Gatinha... Muito legal morar em casa, mas além de não ser seguro, dá trabalho. Casas precisam de muita manutenção. Aqui no prédio a gente paga o condomínio e o pessoal cuida. Eu e seu pai não temos mais esse tempo todo. O tempo que temos, trabalhamos.

- Tá legal, mãe, trabalham, mas não têm liberdade nem tempo. Parece que estão presos, já reparou? As famílias dos meus amigos também vivem presas. Ou estão nos carros ou nos apartamentos... As mães deles são que nem você. Chegam do trabalho e ficam presas na pia...  Depois ficam presas nas novelas com as avós deles... Sabe, eu vejo todo mundo gastando tempo com as coisas, mas não com as pessoas...Aí eu fico pensando: com é que lá no sítio a vovó passa o dia na horta? Deve cansar. Ela está velhinha... Mas, fala sério, eles comem bem pra caramba e conversam muito! E dormem cedo, quase não assistem TV e sempre têm tempo para ficar com a gente... Essas férias no sítio do vovô foram muito especiais. Eu descobri um monte de coisas. Percebi que as coisas de lá são mais soltas, mais legais, mais alegres... Só de ver os bichos soltos a gente se sente melhor... Só falta poder levar minha turma!

O pai, que até então, apenas escutava a conversa da sala veio para a mesa da cozinha...

- Espere aí, filha... Vocês passam férias lá todos os anos... Mas uma coisa é estar de férias, outra é morar... A nossa vida é aqui!

- E lá é aquele vidão, né pai? Fala sério! A vida é lá, pai. Aqui a gente não vive!

- Bom, filha... Não existe um jeito certo de viver. Quando você for dona do seu nariz vai morar onde e como quiser, mas agora não temos como sair daqui. Tudo custa dinheiro e precisamos trabalhar para sustentar nossas vidas.

- Eu sei disso, pai... Tanto trabalham que não têm tempo para nada... E quando vamos ao sítio ficamos todos juntos. Eu volto pra cá triste, toda vez... Fala sério, eu volto por causa da escola, senão ficava lá... Sei lá, pai... Eu tô me sentindo presa... Aqui está todo mundo preso... Eu olho as lojas e parece que as coisas vivem presas nas vitrines. Os cachorros vivem presos nas coleiras. Os passarinhos presos nas gaiolas. Os gatos presos aos sofás. Os zeladores presos nas guaritas. Os professores presos nas salas de aula. O pessoal dos bancos preso nos caixas e o resto preso nas filas. Os jornaleiros ficam presos às bancas. E na padaria, os meninos ficam presos dentro do balcão o dia todo...

- Mas filha...

- É isso mesmo, pai... Eu queria outro jeito da gente viver.

- Filhote... Para morarmos melhor precisamos mudar muitas coisas. Ou ganhamos mais dinheiro para ir para um apartamento maior, ou saímos da cidade, mas isso exige uma mudança enorme em nossas vidas.

- Então vamos morar no sítio!

- Filha, fora daqui é mais difícil ganhar dinheiro!

- A gente gasta menos. Pronto!

- Filha, você sabe que isso pode ser complicado para todos nós... Você toparia gastar menos?  E a escola? E o trabalho? Seu pai precisa chegar cedo. Você já reclama que nunca temos tempo. Imagine se tivermos que fazer estrada?

- Mas mãe... Eu quero plantar as coisas, ter espaço, algum verde... Todos os dias a gente vê na internet que a saúde depende do que a gente come. O que a gente come aqui a gente nem sabe de onde vem!

- Filhinha... Uma coisa é a gente sonhar, outra é o que dá pra fazer... Nós não temos como manter nossa vida fora da cidade! Não dá!

- É, só que dá pra fazer um monte de coisas... Por que vocês têm tempo pra cuidar de carro, da casa, do escritório? Porque dá tempo de ficar no trânsito, de ir a shopping, restaurante, casa de amigos, e nunca têm tempo pra ficar com a gente? Por que o dinheiro dá pra pagar todo mundo e a gente não sai de casa?

- Como assim, Lúcia?

- É pai... A gente fala que vai fazer e não faz... Vocês dois querem viajar sozinhos desde que me entendo por gente e não vão... Vocês dizem que a natureza é o máximo e ficam aí, vendo TV... Vocês dizem que amam os filhos, mas não têm tempo... A gente vê todo mundo dizendo que quer uma vida melhor, falando em amor e paz, só que meia hora depois tá todo mundo buzinando lá embaixo... Todo mundo brigando por causa de uma vaga para estacionar... Aí ficam falando em salvar a Terra... Mas as pessoas fumam, jogam cigarros pela janela do carro, trazem um milhão de sacos de plástico do supermercado, consomem um monte de coisas que fazem mal... Compram uma montanha de comidas ruins em embalagens poluentes... Falam que são ecológicos e comem carne, bebem que nem uns doidos, vivem fazendo barulho, estourando bombas... Depois reclamam de poluição sonora... Sei lá... Acho que eu é que sou maluca e não entendo! Vocês sempre falaram em curtir a natureza... Sempre levaram a gente à praia, ao sítio... E agora querem ficar aqui?

- Sabe, filha... Quando eu era jovem queria morar na praia... Sabe quando desisti? Quando entendi que não adianta mudar de lugar e levar os problemas com a gente. Acho que podemos dar um jeito nisso, tentar melhorar as coisas aqui mesmo...

- Mãe, dar jeito como? Tá todo mundo correndo o tempo todo. Ninguém para nem pra pensar!

- Lulu... Entendi o que você está sentido. Já passei por isso... A gente tem que começar por alguma coisa. Eu entendi que sente falta da gente. Nós também sentimos. E acho que podemos fazer algumas escolhas para ficarmos mais tempo juntos... Só que você e seu irmão também precisam repensar os hábitos de vocês... Podemos pensar juntos na alimentação, de um jeito mais saudável e, quem sabe, trazer mais verduras, frutas e legumes do sítio para preparar aqui. Que tal? Mas vocês vêm para a cozinha!

-Ah, mãe... Não é a mesma coisa...

- Mas por que é que deveria ser a mesma coisa? Será que não podemos melhorar o que temos? Filha... Essa é nossa realidade. Nossa vida está aqui. Não adianta sair dela. Acho que devemos lutar para mudar o que temos, não inventar mais problemas. Não temos como sustentar uma vida lá e outra aqui... Eu tenho uma idéia...

- Que idéia, mãe?

- Li numa revista um artigo sobre pessoas que transformaram seus apartamentos em verdadeiros jardins. Tem gente plantando comida em casa, sabia?

- Mas no apartamento?

- Claro! Sempre tem um canto pra plantar alguma coisa num caixote, que seja um tempero ou uma erva medicinal pra fazer chá... E faz um bem ter plantas em casa!

- Mas mãe... Como é que a gente vai cuidar disso aqui, no décimo andar?

- Se fosse no sítio você não ia cuidar? É questão de querer. Não adianta irmos para o sítio do seu avô e levar a cidade pra lá. Levar nosso jeito de viver pro sítio não resolve nada. É capaz de estragar o sítio com tantas coisas. Imaginou?

- Mãe... Eu acho que temos coisas demais. E é por isso que não dá tempo da gente ficar junto, porque as coisas comem o tempo.

- Verdade, filha... Vou começar por doar aquelas coisas que estão no quartinho lá atrás. Podemos colocar umas prateleiras aqui na área de serviço... Vamos criar nossa hortinha e cuidamos dela juntos... Podemos usar a varanda também e, ao invés de plantas só pra decorar, plantar algo que dê pra comer... Se der certo, podemos levar a idéia para os vizinhos... Não temos como nos livrar de todos os problemas, mas podemos dar um jeito de viver melhor aqui mesmo...

- Sei não, mãe... Aqui no prédio?

- É, gatinha, aqui mesmo! Sabe que alguns condomínios estão criando hortas nas áreas comuns? E dá super certo, porque todo mundo cuida um pouco...

- Pai, dá pra cortar umas garrafas de refri?

- Corto, sim, filha. E tem um monte de embalagens limpas que também podemos usar. É só cortar, fazer uns furos, colocar terra e plantar... A janela lá de trás é grande, vai ter luz e vento de sobra! Vamos trazer terra do sítio, que tal?

- Boa idéia, pai!

- Pronto Lulu... E já que você nos convenceu a parar com os refrigerantes, você vai procurar as garrafas, está certo?

- Tá bom, mãe!

O que a mãe de Lúcia propôs foi um jeito de pensar em todo o planeta a partir de uma ação pequena, mas é assim que as coisas começam a mudar. A partir de pequenas atitudes, pequenas mudanças de hábito na casa e na consciência de cada um...

Não demora, muitas pessoas que querem sair das grandes cidades vão perceber que o que querem mesmo é mais contato com a natureza, consigo mesmas e outras pessoas. E para isso, não precisam criar outras cidades em lugares preservados nem se esconder em condomínios fechados... Precisam mesmo melhorar o dia-a-dia de suas cidades, de sua casa, em suas ruas e espaços públicos.

Importante mesmo é que cada um sinta que pertence ao lugar onde mora e que cuide deste lugar como seu!

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