A festa até que estava animada, mas Marília ficou bastante tempo na varanda...
Olhou para mata, curtiu os passarinhos e acabou entrando.
Brincou por um tempo, conversou, viu um pouco de televisão com as amigas e voltou para a varanda.
Mas não conseguiu ficar lá muito tempo porque estava com fome.
No meio de um jogo, Denise deu por falta da amiga Marília e foi procurá-la.
Na cozinha, encontrou a mãe do Thiago -- o aniversariante -- e perguntou: - Dona Júlia, viu a Marília?
- Marília, a aluna nova? Olha, a última vez que a vi foi aqui. Ela tomou um copo d’água e saiu. Por quê?
- Porque está faltando um na brincadeira e quero que ela entre... A senhora sabe que ela não é normal?
- Como assim, não é normal?
- Ah, tipo assim... Ela não come doce, não toma refrigerante, não come coxinha... Sei lá... Ela é legal, mas acho que não bate bem da cabeça!
- Dê... Eu não sabia disso. Thiago me avisou em cima da hora e não consegui falar com a mãe dela... Se a encontrar, diga que quero conversar com ela. A essa hora deve estar com fome!
Enquanto isso, Marília havia voltado à varanda, muito interessada nos passarinhos que se deliciavam com pedaços de frutas postas numa árvore... Ficou contente porque em sua casa fazia o mesmo com as cascas e pequenos pedaços de frutas que deixava na janela...
Hábitos são retratos muito interessantes da diversidade, mostram que as pessoas são diferentes... Que ninguém é normal!
Claro que a maioria estranha hábitos diferentes. Mas estranhar não quer dizer excluir... Bom mesmo é aprender com o que é diferente!
Não existe um jeito certo ou errado de fazer as coisas. Existe o jeito de cada um... E assim, normal é a gente se aceitar!
Enquanto cuidava dos últimos preparativos do parabéns, Dona Júlia pensava na menina que não comia açúcar... E concluiu: - é verdade... Cada um tem o direito de ser como é, acreditar no que acredita e fazer suas escolhas...
Marília vinha para a sala, mas teve que se desviar de Pedro e Ivo que brigavam:
- Eu não gosto de olho de sogra!
- Problema seu. Esse brigadeiro é meu! Dá aqui!
- É meu. Você come olho de sogra! Dá! Dá!
Os dois já estavam quase se pegando quando Dona Júlia irrompeu pela sala com o bolo, chamando a turma para a cantoria...
Cada um pegou o doce que pôde e foram se juntar aos demais.
Ao redor da mesa todos cantavam parabéns, doidinhos para comer bolo!
Marília também estava contente, cantando alto e batendo palmas.
Pic-pic pra lá, pic-pic pra cá… E Thiago apagou as velas rapidinho!
- Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!
Quase todo mundo servido...
Cortando o bolo, Dona Júlia ainda perguntou: - Marília, você não quer nem um pedacinho? Não? Na dúvida eu trouxe umas frutas para a mesa, se quiser...
Foi quando Ivo gritou: - Deixa ela, tia, ela é maluca. Ela não gosta de bolo! O pai dela é doidão e a mãe é hippie!
Foi uma gargalhada só ecoando pela casa.
Dona Júlia, preocupada com a situação, disse, olhando séria para o menino: - Ivo, ela tem o direito de comer ou não comer o que quiser. Não é o costume dela comer doces, pronto!
Nesse momento, Dona Júlia pensou: e se fosse o contrário? E se os meninos fossem os únicos consumidores de açúcar numa festa vegetariana? Será que eles cantariam assim animados? Então, perguntou: - Como você ia se sentir se a mesa fosse só de frutas e sucos?
E olhando para Marília, disse:
- Eu trouxe as frutas para quem não quiser bolo... Olhem: suco natural de manga, sem açúcar, tá? Quem quiser açúcar tem nesse pote... Se acabar o suco é só pedir: eu faço mais!
Marília não bebia refrigerantes, passou o resto da festa se deliciando com aquele suco...
Thiago disse: - que bom, sobra mais guaraná pra gente!
Então, Pedrinho arrematou: – Ih, tia... Na escola ela leva cenoura e maçã pra comer. Fica sozinha lá, bebendo suquinho azedo o recreio todo. Outro dia apareceu com umas sementes germinadas que pareciam uns bichinhos... Ninguém quer dividir o lanche com ela, não!
Enquanto as crianças riam... Marília fez uma careta bem irritada e disse: - a saúde é minha! Eu cuido de mim como eu achar melhor!... E dando de costas para os meninos, apanhou uma banana...
- Obrigada, Tia...
Passado o clima, Denise come bolo e conversa com Marília...
Marília diz: - quando tem festa em casa, minha mãe faz bolo de açúcar pra quem não come bolo de mel...
- Mas a Dona Júlia não sabia que você não come doce.
- Eu falei pro Thiago. Ele insistiu, disse que ia ser legal... Eu perguntei o que mais ia ter para comer... Ele não respondeu!
- Então, por que você veio?
- Porque eu gosto de festa e queria comemorar com o Thiago.
- Comemorar o quê? Você ficou na varanda quase o tempo todo!
- Eu gosto de festa, tá?
- Cadê a Andréia?
- Estava brincando ali agora mesmo. Ela foi pegar um refri...
Dona Júlia apareceu com um sanduíche de queijo e ofereceu a Marília.
- Queijo você come?
- Como sim, tia!
Marília começou a comer, aliviada, porque brincar com fome não tem graça... Se ela criou consciência e deixou de comer carne e açúcar, talvez fosse bom mesmo os outros se perguntarem: por que comem?
O que nenhum dos garotos percebeu é que ela não disse nada sobre a briga pelos doces nem acusou ninguém de maluco por comer açúcar. Pelo jeito ela tinha aprendido a lição da diversidade.
Dona Júlia ia perguntar se queria mais alguma coisa, mas falou:
- Desculpe, eu não sabia que você vinha, senão faria algo melhor. Todo mundo comeu churrasco, comeu os salgados... Achei que estivesse com fome.
- Estava sim...
Thiago se aproximou e disse: - mãe, também quero sanduíche!
- Mas filho, você comeu churrasco, comeu salgadinhos, comeu bolo... Eu fiz esse sanduíche para a Marília... Por que você não disse que ela é vegetariana?
- Não é vegetariana é ovo... Sei lá... Como é, Marília?
- Sou ovolactovegetariana!
- Ovo lá, isso aí, mãe...
- Ovolactovegetariana, Thiago... Ela come ovos, toma leite, come queijo e o resto é vegetariano: verduras, frutas, legumes... Não é isso, Marília?
- É. Meu pai que é vegetariano. Eu não!
- Ah... Entendi! Que bacana!... E, Marília... Você não sente falta de comer carne?
- Nem um pouco, Tia... Eu gosto, mas não como, porque eu gosto mais dos animais... E meu pai falou que é preciso derrubar as matas e espantar muitos bichos para criar gado. E que esses boizinhos que as pessoas matam para comer bebem muita água potável... E todo mundo sabe que precisamos poupar água!
- Puxa, Marília! Fico impressionada ao ver uma criança consciente como você.
- Mas todo mundo sabe disso, Tia... Não sou só eu... É que eu resolvi parar de comer carne. Minha mãe e minha avó brigaram tanto comigo, ufa!, mas eu parei!
- E aí, Thiago, você acha que o papai para de comer carne?
- Nunca! Ele adora churrasco!
- Eu penso em parar, sim, filho! Sabe, Marília, tudo isso são hábitos. A gente pode mudar se quiser... Acho que se você um dia quiser comer carne, não haverá problemas também... Não é preciso ser tão radical!
- É... De vez em quando, quando meu avô faz churrasco eu como um pouquinho, mas com muita salada!
- Viu só, Thi... Seu pai gosta tanto de carne... Podia variar um pouco!
- Meu pai ama carne! Só que o médico disse pra ele comer pouco, porque tá com gota...
- Meu pai também adora, Thiago, mas não come. Ele disse que isso é escolha. A gente pode deixar de fazer algumas das coisas que gosta para melhorar a vida de todos e a da gente também.
- Verdade, Marília!... E o açúcar, você não sente falta?
E Marília se perguntava... Se o pai dele não pode comer carne, por que come?
- Nadinha, Tia Júlia. As frutas são doces. E tem mel de abelhas que adoça tudo do mesmo jeito... Açúcar é sempre demais, é o que meu pai diz! Dá cárie, engorda e faz mal à saúde!
- E na escola, como fica?
- Eu levo minha comida de casa... E quando dá vontade, como um pão de queijo da Tia Ana!
- Entendi... E na escola há mais crianças como você?
- Nunca vi... Acho que sou a única...
- Não tem não, mãe... É só ela que é esquisita!
- Mas filho, ela não é esquisita. Só pensa diferente e a gente precisa respeitar quem é diferente. Além do mais, Marília é uma garota legal... Eu adoraria ter uma amiga como ela!
Então, Dona Júlia deixou as crianças brincando, e foi para a cozinha... Voltou com uma linda salada de frutas sobre a qual brilhava a chama de uma vela.
- Vamos cantar parabéns de novo?
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