Jir era um garoto comum. Alegre e criativo. Esperto como todas as crianças... Diferente como todas as pessoas... Especial como todos os seres vivos...
Vibrava com suas descobertas. Mergulhava nos pequenos mundos que encontrava. Mundos em que quase todo mundo pode reparar: mas só crianças entram com facilidade.
Reparava em tudo. E cada uma dessas coisas guardava mais e mais descobertas, um mundo dentro do outro...
Uma fila de minúsculas formigas no armário, embaixo da pia da cozinha. Os tatuzinhos sob as pedras, no canteiro no jardim. A tinta descascada ao pé do muro. A rachadura no piso de cimento, as plantinhas brotando dali, e outro formigueiro parecido com um pequeno vulcão.
A escuridão, o cheiro de cera e o aspirador embaixo da escada, na casa da avó. Os grãos de areia no tapete do porta-malas do carro. As infinitas coisas guardadas no gaveteiro da cozinha...
Os desenhos formados na casca de uma árvore. O vento ondulando uma poça de água da chuva. Um vale entre as pedras, no cantão da praia,...
Ele entrava inteiro no que via. E queria ver tudo. Sentir tudo. Entender tudo...
Jir descobriu muitas coisas brincando na areia...
Um dia, quando seu pai reformava a casa, Jir descobriu que ali havia uma areia tão boa de brincar quanto a da praia...
E tão boa de brincar quanto a terra escura dos canteiros...
E boa de brincar como a terra vermelha do sítio...
Jir percebeu muito cedo que não importava qual a areia ou a terra: interessante mesmo era a brincadeira...
Experimentar e aprender com coisas simples como água, terra, plantas, folhas secas, pedras é um grande prazer...
Sim, Jir tinha brinquedos em casa. Mas eram todos brinquedos de cidade. Brinquedos comprados. Brinquedos de plástico. Brinquedos de madeira. Brinquedos pintados. Brinquedos muito legais, mas não era ele que inventava!
O que ele gostava mesmo era de brincar fora de casa: cavar buracos, fazer pontes de terra com gravetos, construir caminhos com pedras, folhas, latas... Quando ia ao supermercado com a mãe, já ia imaginando brinquedos nas embalagens que via...
Quando ia para a praia, não era diferente. Eram castelos, rampas, túneis, torres, estradas, plantações, florestas... Ele construía verdadeiras cidades recicláveis que iam se transformando, crescendo, diminuindo, mudando...
Era uma eterna brincadeira que fazia o tempo desaparecer enquanto ele ia aprendendo que tudo mudava: nada é para sempre...
Jir se perguntou se podia fazer seus castelos de cimento, mas não levou a idéia adiante.
Cimento, as crianças que viessem depois, não poderiam transformar. Não poderiam reinventar, nem mudar. Teriam que ficar com o castelo do jeito que foi feito... E a gente sabe que a brincadeira nunca vai cansar ninguém... Mas os brinquedos acabam cansando.
Os amigos de Jir tinham muitos brinquedos também. Brinquedos de que ele até gostava... Mas não fazia questão, não... Claro que gostava dos brinquedos, mas o que ele adorava eram as brincadeiras...
Por isso mesmo, Jir gostava das coisas simples, maleáveis. Coisas que pudessem se transformar quando fosse preciso. Coisas que tomassem a forma que ele inventasse; como e quando ele quisesse...
Numa tarde de verão, Jir construiu um castelo enorme na areia da praia...
Enorme mesmo! Tão alto, tão real, tão forte que qualquer um que visse, ia querer entrar.
Quando parecia estar pronto, ele saltou sobre a muralha e levantou a ponte que fez sobre o fosso para esperar a maré subir...
Puxa... Ficou legal por dentro também!
E voltou ao trabalho! Trabalho de criança é esse mesmo, brincar!
Imaginando-se pelos túneis e degraus do castelo, Jir encontrou conchas e cascas de mariscos. Pedaços de madeira que pareciam sobras de um naufrágio...
Cavou, cavou, cavou... Até formar um enorme salão no centro do castelo...
Em toda a volta, uma parede de onde podia ver o mar, a praia e as árvores...
Juntando conchas, madeira e tampas de garrafas, decorou as paredes e fez um trono onde, sentado como se fosse mesmo um rei, pôs o baldinho na cabeça e disse:
-- Eu sou o Rei Jir! E este é meu castelo!
-- Sou poderoso! Eu sou o Rei Jir!
-- Eu sou o rei Jir!
-- É... Jir! O rei mais triste do mundo!
Suas palavras iam se misturando ao som do vento e do mar, lá fora... E naquele aconchego, abrigado no interior de sua fortaleza, assobiava, sempre cavando, buscando novas descobertas...
Depois de trabalhar muito -- já disse que brincar é o trabalho das crianças? -- Subiu à torre e olhou o mar...
O boné colorido virou uma bandeira presa a um graveto...
Latas e potes de plástico viraram canhões apontados para o mar...
-- Este é o castelo do Rei Jir!
A tarde estava quente! Um vento delicioso de verão. Jir ia buscar água no mar e voltava para o interior de seu castelo...
Desceu ao salão. Sentado em seu trono de areia, pensou:
-- O que mais?
Esvaziou a coroa e a colocou novamente na cabeça...
Perguntou : -- onde está o sábio desse castelo? Não tem sábio aqui? Todo rei tem um sábio por perto... Onde está o sábio?
De repente, uma das paredes do castelo caiu e uma Maria Farinha entrou pelo salão:
Jir ficou assustado!
-- Quem é você?
-- Eu sou uma Maria Farinha!
-- Ouvi uma voz ecoando pelo meu túnel. Então você que é o tal rei?
Jir pareceu assustado e recuou...
-- Calma! Não vou machucar você!
-- Sou o Rei Jir! Sou rei deste castelo! Mas eu esperava um sábio. Um homem velho, careca ou de barbas brancas...
-- Pois é... E eu esperava um rei justo! Você não acha legal me conhecer melhor antes de achar que só os que parecem sábios podem ser sábios? Olha que o mundo está cheio de velhos de barba branca que não aprenderam muita coisa... São pessoas que não sabem a diferença entre envelhecer e evoluir... E muitos deles mandam em nossas vidas! Vai ver é por isso que o mundo está assim...
Acho que é por isso que o mar anda tão poluído e a natureza tão assustada. Olha quanto lixo! Tem gente que acha que só precisa pensar em si...
Eles ainda não entenderam que as crianças que ainda vão nascer e mesmo você e seus amigos vão querer um mundo legal para viver...
Tudo que foi feito ao nosso planeta foi feito por pessoas que tinham razões e motivos para fazer. Todos dizendo que são sábios... Imagine só, se cada um fizer o que quer sem pensar no futuro, como é que fica?
Menino, você já reparou como tem gente nesse mundo querendo parecer o que não é?
Jir balançou a cabeça...
-- Mas... Você não se parece com sábio algum!
-- E você, parece Rei? E as corujas, lá são sábias como dizem? E essa conversa de rei mais triste do mundo? Onde já se viu, Rei mais triste do mundo!?
-- Não quis dizer que você não é sábia... Só que achei estranho uma Maria Farinha ser conselheira.
-- Pois é... E se fosse um tatu ou um pé de couve, tinha que ter cara de conselheiro? Mas não se preocupe. Entendi o que sentiu. Mesmo assim, quero que pense: por que a gente tem que ter “cara” disso ou daquilo? Cada um é como é!
Jir olhou fixo e disse:
-- Cada um é como é e sábios são sempre velhos!
-- Ih... Esse tipo de sábio está fora de moda. Isso era antes da diversidade. Os sábios de hoje andam por aí, sem uniforme. São sábios, mas não têm mais a cara dos sábios de antigamente... Na verdade, cada um tem sua sabedoria...
-- Mas como vou saber se você é sábia? Você parece um caranguejo. Aliás, é um caranguejo. E com esses olhões, parece que está mais assustada que eu!
--Você é criança. Eu confio em crianças. Vou lhe contar um segredo: a gente não sabe o que ou outro sabe. Nunca!
-- Não?
-- Não, rapaz! Mesmo quando a gente conhece bem as pessoas, o que vai dentro da cabeça delas, só elas sabem!
Jir concordou, mas quando ia falar a Maria Farinha falou:
-- Então, que história é essa de rei triste? A Maria Farinha sorriu, olhou pra cima e continuou: --Vivendo e aprendendo... Nunca pensei que houvesse rei triste! Além do mais, como é que um rei triste faz um castelo legal desses?
-- Não vou te contar nada!
-- Como não? Não era por isso que queria um sábio no seu castelo? Ah...Uma pena que as crianças andem tão desconfiadas ... Olha só... Eu estava aqui cavando meu túnel e de repente você aparece, constrói um trono, senta aí e diz que é rei... Legal... Eu topei a brincadeira... Aí, diz que é o rei mais triste do mundo... Tá, eu até entendi que está triste, mas quero saber por quê?! Então, bem que você pode confiar em mim, não é?
-- Mas...
-- Mas, o quê? Você pediu sábio. Sábio está aqui. Em que posso ajudá-lo?
-- Ah... Nada não...
-- Como nada não? Está querendo me enrolar? Você pediu sabedoria. Eu estou aqui. Agora... Diga, o que quer saber!
-- Não sei... Esqueci!
A Maria farinha deu de costas impaciente e retornou à escavação de seu túnel. Ia sumindo na areia quando Jir disse:
-- Espere!
-- Estou esperando... Cavando devagar pra ver se você fala... Senão vou cuidar dos meus túneis.
-- É que...
A Maria Farinha fechou as garras e olhou nos olhos de Jir.
-- Diga, reizinho! Reizinho triste... Qual seu nome mesmo?
-- Jir!
-- Que nome diferente!
-- É, sim... Mas é como me chamam.
-- Então, Jir... O que é que está pegando?
-- Eu... Não sei se devo dizer.
-- Ih... Já vi que tem coisa aí!
-- É, tem. Mas eu não sei como dizer...
-- Bem... A gente precisa aprender a falar o que sente, sabia? Se a gente não for capaz de dizer o que sente, pensa ou quer, não adianta sabedoria nenhuma. Nem de escola nem de casa... É bom que as coisas sejam assim... O que a gente sente deve ser como o que a gente pensa e quer!
-- Assim, como? Complicada sua sabedoria!
-- Calma... É assim... Há coisas que a gente faz sem vontade.Ou tem vontade, mas não acredita. Ou nem faz, fica só pensando e sentindo... Aí não funciona! Por isso, digo que precisamos aprender a expressar as coisas e entender o que realmente queremos... Quando o que a gente sente, pensa e quer são a mesma coisa, as coisas caminham bem!
-- Como assim?
-- Assim mesmo... Quando a gente faz uma coisa, pensa a mesma coisa, gosta daquilo e consegue fazer... É o melhor, parece que as coisas ficam mais fáceis.
-- Acho que entendi... Quando a gente faz contra a vontade é ruim! É isso?Acho que é por isso que tem umas brincadeiras que nunca dão certo. É porque a gente brinca sem querer brincar?
-- É mais ou menos isso... Mas brincar é sempre bom... Isso é que acho legal, deixar as crianças brincarem, porque é quando elas sentem, pensam e fazem exatamente o que querem... Por isso, digo que os adultos precisam aprender com as crianças também. E para isso, basta observarem as crianças sem julgar... Porque crianças fazem as coisas por inteiro, e não gostam de largar as coisas sem terminar, não...
-- Como assim?
-- Como assim que eu perguntei primeiro: e eu perguntei por que o rei deste castelo é triste!?
Jir olhou para o mar por um buraco do castelo e suspirou... -- Isso eu sei... Sou o rei mais triste do mundo! E com um olhar desanimado, jogou o balde no chão.
-- Isso foi a primeira coisa que ouvi... Já estou cansado de saber. Mas por quê? Diga isso e mais uma coisa: quem te ensinou a fazer castelo de areia?
-- Ele, meu pai. Mas não faz mais. Agora ele não pode mais fazer. Meu pai não tem tempo de brincar comigo. Está sempre correndo. Sempre ocupado. Sempre com alguma coisa mais importante que eu pra cuidar.
--Ah... Entendo! Isso é muito difícil pra você, não?
-- Se é! Puxa, como é difícil. É o carro pra consertar. O cliente pra visitar. O trabalho. O futebol. O jornal. Sempre tem alguma coisa mais importante que eu.
-- Entendi. Mas você já disse isso pra ele?
-- Não.
-- E como ele vai saber? Só se for adivinho. E se ele é adivinho, pra que você quer ser rei? Pra que sábio?
-- Ele não é adivinho.
-- Então, como ele vai saber que você está triste?
-- Não sei...
E chorou muito, até que a Maria Farinha empurrou um pouco de areia para o meio da sala e preparou um lugar para ele.
-- Sente aqui... Eu quero lhe dizer umas coisas... Seu pai trabalha porque precisa, não é?
-- Acho que é. Ele diz isso o tempo todo. E diz que é para me dar uma vida boa.
-- Será que ele sabe o que você quer?
-- Eu só quero que ele esteja aqui comigo. Não precisa mais nada! Ele diz que vai me dar todos os brinquedos que eu quiser. Só que eu quero ele brincando comigo.
-- Mas como faz para ele brincar se tem que trabalhar?
-- É por isso que sou o rei mais triste do mundo! Porque não adianta falar. Eu já ouvi essa conversa um monte de vezes. Eles ficam falando disso lá em casa...
-- Sei. E você, não diz nada?
-- Não!
-- Por quê?
-- Porque tenho medo deles não entenderem.
-- Mas se não disser, não vão entender mesmo... Faça o seguinte... Como rei deste castelo você deve comunicar aos seus pais que está convocando a presença deles! Que quer os brinquedos, mas quer as brincadeiras com eles. E se tiver que escolher entre eles e os brinquedos prefere brincar com eles... Diga a eles o que sente, o que pensa e o que quer!
-- Como faço isso?
-- Na hora você vai saber. Mas tenha certeza de que sem dizer, nada vai mudar. Pode pensar, sentir e querer, sem falar, não muda.
-- E se eles não gostarem?
-- Ué... Quando a gente tenta, pode conseguir, ou não! Tente. E esteja disposto a negociar.
-- Como assim?
-- Ué... Vou ter que explicar tudo?... Se ele disser que não tem tempo porque precisa disso e daquilo, pergunte do que realmente ele precisa e diga, de coração, o que você realmente precisa.
-- Se ele brincasse comigo na praia eu já ia adorar. Ele me ensinou a fazer castelos e sumiu: nunca mais!
-- Sim, entendo. Mas se você quer que ele aceite sua necessidade, terá que compreender as dele... Muitos pais têm certeza de fazerem o melhor para os filhos conseguindo dinheiro para tudo que se pode comprar, mas esquecem que podemos até comprar brinquedos, mas não temos como comprar a brincadeira, a presença, o prazer de estar juntos... Criança nenhuma do mundo brinca por dinheiro. Brinca por que quer, porque sente, porque brincar é sua forma de agir e se expressar...
-- Será que você consegue conversar com eles?
-- Vou tentar... Vou tentar!
-- Eles precisam entender que o seu futuro e o futuro do mundo serão melhores se você tiver a presença carinhosa deles agora... Por isso nós, seres da natureza, estamos tão animados com as conversas sobre sustentabilidade que temos ouvido... E quando lhe falarem em sustentabilidade, não pense que é só de sustentar o dinheiro que estão falando... É agora que preparamos pessoas legais para o futuro. E eu tenho certeza que você vai ser um pai muito legal!
Então, pela fresta na muralha do castelo a luz do sol se apagou. Já era final de tarde e tudo ficou alaranjado no horizonte...
Jir ouviu a mãe chamando para ir embora, saiu do castelo e nem teve tempo de se despedir de sua sábia amiga...
Relendo um pensamento de Saramago: Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu fizeram-no de carne e sangra todo dia, acabei me deixando levar pelo coração. Amanheci hoje com ele em sobressalto, talvez “sangrando”, não sei bem, o certo é que, como em tempos atrás, meus pensamentos e talvez minha intuição me fizeram pensar (preocupar) em você. Foi mais forte... há tempos isso não acontecia, então me deixei levar, mais uma vez por impulso, nem pensei muito. Como não tenho mais como contatá-lo, busquei o blog e, reli as histórias infantis que escreveu.
ResponderExcluirEm cada história, em cada trecho, revivi o processo de produção, difícil, na “marra” como você dizia, buscando a própria superação. Tempos difíceis aqueles, mas as histórias foram escritas, saindo da imaginação e das lembranças do escritor para a página em branco do computador. “Preso” no tema da sustentabilidade e procurando atender ao universo infantil, as tramas foram tomando corpo e os filhos “tortos” do poeta-escritor “de adultos” foram nascendo. Tinham destino certo, mas por algum motivo, não encontraram morada no tão sonhado livro. Parecia até que o universo conspirava contra, tão forte os fatos que se sucederam, não sei explicar. Talvez não era o tempo certo, pois o tempo tem sempre um tempo, como disse Ana maria Machado em uma das suas histórias. Mas isso não vem ao caso.
Escrevo hoje na esperança de que um dia leia. Não para obter resposta, pois bem sei que sou pessoa não grata em sua vida, “página virada”. Mas para que você, sem ajuda de quem quer que seja, vá atrás do seu sonho de escritor. Essa é minha intenção, essa é a minha intuição. Meu pensamento recorrente de hoje é que me faz escrever.
Apesar dessa experiência que lhe tirou o chão, em que o tombo foi grande, acredito que você sabe o caminho das pedras, sabe o que tem que fazer para chegar a um editor. São muitas as editoras, tire cópia de seus textos, “bata nas portas”, leve-os em pen-drive, insista, exerça a humildade de quem tem a grandeza dentro de si. Sim, a grandeza das ideias, o dom da expressão verbal que nasceu com você e que, tenho certeza, trará a sua realização pessoal. Não me refiro aos textos infantis, que são muito bons do meu ponto de vista, mas dos outros tantos que escreveu e que deve continuar escrevendo, sempre para pessoas conhecidas ou amigos virtuais. Isso é muito pequeno, você tem que escrever para os muitos leitores, que estão fora de seu alcance, para o público maior, ávido de leituras consistentes, de escritores competentes, de escritores-poetas que escrevem com o coração sangrando como o seu.
Hoje acordei sobressaltada, pensando no escritor...
Termino com Saramago: “A vida é breve, mas é muito mais do que somos capazes e viver”. Sabendo disso, viva o seu maior sonho, antes que a brevidade se transforme em finitude.
Feliz 2012.