Era uma vez um menino azul. Azul, retinto e insolúvel...
Amava as águas, o céu e tudo que fosse azul. Enlouquecia de vontade de usar outras cores, mas o que era seu era azul... Havia azul demais na vida de Zuzu. Ele achava que só o azul era bom... Vivia quieto em seu mundinho azul, vestido de índigo, dormindo em uma cama azul com lençóis azuis, travesseiro azul, abajur azul com lâmpada azul... E sabe que cor era seu quarto? Pois é... Azul!
Era um menino de poucos amigos. As crianças de outras cores pareciam ser de outro mundo...E quando se olhava no espelho achava que nunca teria um amigo parecido...Zuzu era muito inteligente e feito de um complexo furta-cor de azuis, mas só conseguia brincar sozinho, porque apenas ele sabia o nome de cada uma de suas coisas azuis... Olhar azul profundo, sorriso azul piscina, cabelo azul royal, as mãozinhas azuis claras, idéias azuis de todos os tons. Tempestades azuis. Manhãs azuis...
Essa era a vida de Zuzu... Mudava de azul segundo luz, umidade e pressa... Ao sol parecia feliz. Em dias de chuva resmungava opaco pela casa. E se atrasasse ficava azul de raiva...Caminhava vestido de azul cobalto pelas ruas. Sonhava azul cerúleo, acordava azul anil, mas sua vida era um imenso azul escuro... Era a tal solitude: o menino azul tinha que se bastar porque o medo da solidão não era azul, mas noite quase negra...Então, para não se sentir sozinho, vivia cercado do que achava seguro. Para Zuzu, seguro era o azul...
Construiu uma fortaleza azul marinho para viver, mas lhe faltavam outras cores encantadas... Por natureza, por princípio, por medo, que importa?, não conseguia fazer nada de outra cor.Carregava seus azuis pela estrada, maravilhado com cada novo tom que descobria em si...Imaginava como ficaria sua cor ao lado de outras, mas não se diluía, não: apenas irradiava! E com isso, até ficava contentinho, mas queria mais...
As pessoas reparavam. Sorriam para ele e diziam, boquiabertas - Que azuuul lindo!
-Quanto azuuul! - Ah... Eu quero um pouco desse azul!
O menino, azulado de tão tímido, acenava, retribuía os sorrisos e mergulhava de volta em seus azuis, triste porque queria outras cores, mas não conseguia partilhar o azul... A vida de Zuzu não era azul como ele queria. E ele precisou se conhecer, saber quem era e descobrir como venceria aquele medo azul marinho de trocar cores.
Até que, de tanto conversar com seus botões azuis, descobriu que por mais orgulhoso que fosse do que era seu, era amoroso demais para ficar com tudo só para si...
Saiu pelas ruas à procura de outras crianças...Apanhou um toco de giz amarelo e pintou manchas nas mãos... Vestiu um boné cor de abóbora e um par de tênis brancos. A vontade de partilhar era tão grande que foi tingindo as coisas aqui e ali, e aprendendo coisas de outras cores... A lambida no sorvete vermelho ficou roxa...A parede caiada onde se encostou virou céu...
As cores pareciam ter nascido naquele dia... Zuzu encontrou uma bicicleta esverdeada e a transformou em turquesa... E o menino azul pedalou pelo bairro até encontrar um menino amarelo: construíram uma linda amizade verde... Trocaram cores, idéias, brinquedos... Foram juntos ao parque e conheceram uma menina vermelha. Brincaram juntos até a alegria ficar laranja, violeta e reluzir naquelas cores que os que têm amigos conhecem... Enquanto brincavam, surgiu um cachorro branco que terminou a brincadeira todo colorido. À tarde foram para a praia e festejaram os rosas, cinzas e lilases do sol dando adeus. Afinal, o que eram, tinham e sabiam podia ser trocado com os outros.
Contemplando todas aquelas cores, Zuzu sorriu porque percebeu que ficar só era uma escolha, bastava que ele quisesse e voltaria para dentro de seus azuis... Mas nunca mais se fechou em uma só cor... Sentia uma paz enorme porque sua vida, afinal, era toda colorida!
Havia uma cidade feita para ser bonita. Bem do gosto de quem morava lá. Cheia de casas bonitas, jardins bonitos... Carros bonitos... Lojas bonitas, cheias de coisas que também eram feitas para ser bonitas...
Quer dizer... Uma parte da cidade era assim...
Em um bairro todas as casas eram bonitas. No outro, mais ou menos. No bairro ao lado, poucas casas eram mais ou menos bonitas... E em outro bairro, na mesma cidade, havia lugares onde as pessoas eram bonitas, tinham sonhos lindos como todas as outras: mas moravam em casas que todos achavam feias porque eram feitas de materiais achados pelas ruas...
Veja só, quanta gente sonha ter uma casa bacana? Mas nem todos têm! E sabe o que mais? É sempre bom perguntar: o que é uma casa bacana?
Enquanto muitos falam em salvar o planeta morando em casas feitas de materiais novos e caros, muita gente recicla material para construir suas casas... E depois, dizem que o povo não sabe de nada!
A verdade é que cada um mora como pode e onde pode. Legal é a casa da gente... É por isso que muita gente quer levar a casa junto quando viaja e esquece que cada lugar tem seu jeito.
Está escrito nas leis que todos têm direito de morar bem... E o que todo mundo quer é que o lugar onde mora seja legal! Fala sério, morar é uma questão de se sentir bem em casa e nas redonzezas!
Uma casa, para ser boa, deve funcionar do nosso jeito. Senão, a gente não vai querer ficar nela... E a mesma coisa acontece com a cidade onde a gente mora, estuda, trabalha... Se não for gostoso viver nela... Xiiii!
Será que é por isso que todo mundo quer ter sítio e casa de praia?
A casa tem que ser: gostosa! Tem que ter a sua cara. Não tem que ser como aquelas de filme. Mas é bom que seja segura, coberta, seca, ventilada e que tenha um bom espaço, pelo menos pra gente se alongaaaaaar e poder se esparramar nos dias de chuva...
Outra coisa importante que falta na maioria das casas é espaço para plantar. Conviver com plantas melhora muito a vida da gente.
Quem gosta de casa divertida, mora em casa divertida. Quem gosta de casa séria, tem que morar em casa séria...
Quer dizer... Quando dá!
Mas conheço meninos e meninas super divertidos que moram em casas sérias demais. E pais que são sérios demais para morar em casas divertidas...
Acho, sim, que casas deviam dar menos trabalho e mais diversão... Diversão, principalmente para as crianças e jovens, porque tem gente que não entende que crianças e jovens não têm que ser sérios...
Psiu! Os adultos também não precisam ser sérios o tempo todo, não!
Antigamente as casas davam trabalho, mas as pessoas tinham mais tempo para cuidar de suas casas, pintar muros, cuidar do jardim, plantar algo na horta, brincar e até fazer festas estreladas no quintal; isso, naquele tempo em que todas as casas tinham quintais e o muro do vizinho ficava láááá atrás...
Na falta de quintais, tem que haver parque ou mata por perto: só cimento não dá! A gente se sente no deserto! No cimento, nenhuma semente germina... E nós precisamos conviver com plantas... Por isso, áreas livres e parques são muito importantes para a saúde das pessoas...
Ahhh, que coisa boa! Poder ver longe... Passear entre as árvores... Deitar na grama... Curtir uma sombra gostosa numa tarde quente... Um programa cultural. Áreas verdes são tudo de bom, não é?
Sabe? Cidade boa é cidade pensada para todos...
Mas todos, quem?
Porque, se a cidade fosse feita para todos, devia ter mais espaço para gente que para os carros.
Nem todos têm carros. Aliás, quem tem é uma minoria... Mas a maior parte do espaço das cidades é dos carros. E tem tanta gente mais preocupada com carros que com pessoas que começo a pensar se não estamos em desvantagem.
Carros não precisam fazer ginástica, não namoram de mãos dadas nem passeiam de bicicleta. Carros não levam cachorro pra fazer cocô... Carros são coisas! E a cidade é para pessoas!
A cidade é feita para pessoas com carro e pessoas sem carro!
E se as cidades fossem mesmo feitas para as pessoas e não para os carros?
Já parou para pensar como seria uma cidade sem os automóveis? Teria mais áreas verdes e de lazer, ou mais cimento e mais asfalto? O que você acha?
Imagine só... Uma cidade com menos automóveis? Mais bicicletas, skates, patinetes e crianças por todos os lados? Já pensou? Não? Então pense!
E que tal mais ônibus e metrôs com lugar para sentar, sem atrasar com o trânsito dos carros? Transportariam mais gente, com menos combustível, menos poluição, ocupando menos espaço na sua cidade... E não é que acaba sendo mais seguro andar de condução que de carro?
De carro é mais divertido? Hummm... Não sei, não... Quando viajo de ônibus com minhas filhas curtimos, conversamos e brincamos o tempo todo e eu não preciso me preocupar com a estrada. Além de tudo é mais seguro e barato!
Olha quanto espaço os carros precisam na cidade, fora o espaço das garagens, e o espaço dos estacionamentos, o espaço das rampas, o espaço das oficinas, o espaço dos postos de gasolina, o espaço das vagas na padaria, o espaço nos bancos, o espaço nos supermercados... Ufa!... E quando a gente quer andar, tem que ficar trançando o caminho entre eles, não é?
Puxa... Tem gente que tira o carro da garagem só pra ir até a esquina... Ih, ih, ih... Deviam andar mais, para deixarem de ser barrigudos!
Mas a tal cidade de que falávamos... Era uma cidade feita para ser segura, lembram? Porque as pessoas que nela moravam achavam que morar no mato era perigoso... Sei lá, de repente, podia ter cobra, lagarto, tatu, paca... Cotia, não...
Mas podia chover e tudo virar barro. Podia cair árvore com raio. Podia até ficar longe de tudo. Vai ver, foi por isso que começamos a morar tão apertado, muro com muro, apartamento sobre apartamento, janela de cara com janela. Argh! Que sufoco!
Será que foi mesmo pra viver em segurança que as pessoas inventaram as cidades?
Olhe... Não sei se foi por isso... Mas sei que no começo tinha mais mato que casas. Aí, começaram a tirar o mato e construir mais casas. E de um monte de casas começaram a fazer ruas. E juntando as ruas, fizeram bairros, daí, já viu, né? As cidades cresceram tanto que agora uma cidade fica dando cotovelada na outra!
E as plantas, coitadas, escaparam para os vasos da vovó; e cada pedacinho do mato, todas as plantas foram arrancadas para construir cidades... Isso, sem falar nos bichos: os passarinhos, cobras, lagartos, pacas, tatus -- e cotias também --, foram todos embora. Porque a idéia era essa mesmo: bicho tinha que morar longe de gente.
Mas no começo não era tão ruim. Afinal, cada casa tinha um quintal. Em cada quintal, uma ou outra árvore. Um cachorro esperto. Uma tartaruga. Às vezes, uma horta. Um galinheiro. Um canteiro cheio de flores... Uma moça linda na janela...
Quando as cidades eram pequenas, todo mundo se conhecia: - Boa tarde, seu Joaquim!
Não havia prédios. E não havia elevadores apertados pra gente ficar com cara de uai pro vizinho, olhando os andares subindo e descendo...
Tinha poucas ruas e as pessoas não tinham medo, não... Esse medo que têm hoje, não!
Com o tempo, tudo começou a mudar...
E cada vez vinha mais gente morar nas cidades. E aí, as ruas estreitas onde passavam os cavalos e charretes, começaram a ficar largas para os carros e caminhões passarem.
Em cada casa e loja tinha que ter um lugar para o carro também. E quanto mais gente chegava, mais carros, mais postos de gasolina, mais garagens, mais oficinas, mais estacionamentos, mais semáforos: - ih, parem de buzinar! Esse trânsito não anda, não?
Antigamente... Na cidade havia de tudo um pouco. Havia casa bonita. Casa mais ou menos... Havia mercearia. Havia tintureiro. Havia afiador de facas tocando gaita e velhinho batendo matraca pra vender biju... Havia casinha de correio e tinha pharmácia, assim mesmo, com ph... Além de tudo isso... Passava o homem do realejo... Como assim, o que é realejo? Pesquise na internet!
Outra coisa legal é que nos bairros havia ruas de terra. Havia quitanda, avícola e a vendinha do seu Queiróz... E as pessoas compravam poucas coisas, porque precisavam de poucas coisas para serem felizes.
Você sabia que -- não faz muito tempo, não -- as casas, tinham poucas tomadas e nem tinha tanta coisa para ligar, viu? É que naquele tempo, conforto era outra coisa... E esse monte de máquinas que temos hoje não existia... Do jeito que vai... Logo inventam um descascador eletrônico de bananas, já pensou?
E foi por causa dessa idéia de que conforto é não ter que fazer as coisas... Que muitas coisas foram ficando desconfortáveis nas cidades.
Mas o pior não é isso, não... O pior de tudo é que as pessoas acharam que poder comprar tudo que queriam era a felicidade...
Legal, poder comprar o que precisamos... Mas será que isso é a felicidade? A gente come coisas? Coisas são carinhosas? Plástico e lata são como amigos? Salgadinhos amam a gente? Carros dão de mamar? Eletrodomésticos abraçam?
As cidades cresceram tanto, tanto e tanto... Que juntando casas, ligando ruas e unindo bairros, uma cidade foi encostando na outra e acabaram se tornando as imensas manchas de luz que vemos nas fotos de satélites. Cidades que não dormem. Não descansam. Não pensam em pôr-do-sol.
Pelo satélite, que também não dorme, vemos cidades insaciáveis onde anormal é ser poeta!
E não para de chegar gente... Gente achando que vai encontrar segurança, trabalho, qualidade de vida; gente querendo ter coisas e buscando formas de ganhar mais dinheiro para ter mais coisas e mais carros para andar, e mais roupas para vestir, e mais tomadas para ligar... São tantas coisas para fazer que a cidade – faminta e incontrolável – precisa comer o tempo de todo mundo para poder crescer mais e mais e mais...
Mas não foi sempre assim... As coisas começaram a complicar mesmo quando os construtores, apostando no crescimento das cidades, começaram a empilhar as casas, umas sobre outras na forma de prédios.
Construíram um edifício aqui, outro lá... Surgia outro no horizonte... E outro, ainda mais distante... E logo um bate-estaca estremecia a vizinhança toda...
De repente, a cidade já tinha muitos edifícios... Em cada um muitos carros... Imagine só? Num lugar onde cabia uma casa com uma família, um quintal, uma garagem, um esgoto, um lixo, um carro, um cachorro... As pessoas derrubavam a casa e construíam uma torre para quarenta famílias!
Só que, com o tempo, começaram a derrubar cada vez mais casas e fazer prédios. Construções maiores, conjuntos de prédios, prédios com jardins e piscinas e garagens e academias e churrasqueiras... E prédios bonitos, edifícios feios, edifícios esquisitos, edifícios tortos, quadrados: edifícios cheios de gente...
Vai ver por isso os quintais foram sumindo. As moças saíram das janelas. Os pomares e canteiros foram cimentados. E ao invés de regar as hortas, cada qual só queria arrumar um jeito de lavar seu carro, guardar suas coisas e comprar sua comida no supermercado!
Passarinho? Um ou outro... E olhe que eu sei de gente que põe pedaços de frutas na janela até hoje e espera!... Mas as cobras e lagartos sumiram de vez! As pacas fugiram para tão longe que a gente só tem notícias delas nos livros, onde os tatus, quatis e gambás também foram morar... E as cotias? Só sabemos de uma que virou nome de cidade perto de São Paulo. O resto, nunca mais ninguém ouviu falar...
Foi numa cidade assim, onde cada edifício tinha dez, quinze ou mais andares, e cada andar tinha muitos apartamentos, e cada apartamento tinha fogão, geladeira, televisores, computadores, telões, batedeiras, liquidificadores, descascadores de bananas, móveis, prateleiras, esteiras, luminárias, enfeites, coisas, coisas e mais coisas... Que aconteceu algo muito especial...
Era domingo de manhã, logo depois do café, Lúcia, uma garota inteligente que só, começou a tagarelar:
- Mãe, desde que voltamos do sítio do vovô tenho pensado em algumas coisas beeem legais...
- Como assim, filha?
- As coisas são muito diferentes fora da cidade, né? Parece que até o tempo demora mais para passar... Aqui é legal... Tem minha escola, meus amigos... Mas tem umas coisas que não dá pra encarar. É muita sujeira, muito barulho, muita gente...
- Lú, é por isso que vamos sempre para o sítio...
- Mãe... Por que o gosto da água daqui é tão ruim? Por que é que a gente tem que comprar água pra beber? Lá no vovô a água da bica sai na torneira! E é uma delícia. Eu fui com ele até o pé da serra e vi a nascente. Fica no meio de umas pedras. É a água mais gostosa que já bebi...
- Eu sei filha... Passei a infância bebendo essa água... É uma delícia mesmo! E seu avô cuida daquela nascente como se fosse a coisa mais preciosa do mundo... Ele sempre disse: tendo água boa, o resto vai!
- E por que a gente não vai morar lá?
- Filha... Nós precisamos trabalhar e você tem a escola. Lá não tem nada pra fazer e fica muito longe de tudo. Imagine só?... Teríamos que pegar estrada todos os dias para trabalhar aqui. E você sabe que lá não tem internet! Você vive sem computador?
- Eu sei de tudo disso, mãe... Mas não sei se gosto da cidade... Sei lá... É um ar pesado, tem o problema da poluição. Da violência. Não tem espaço. Todo mundo tem medo de ficar na rua. Não tem espaço nem pra todos os carros...
Vocês vivem presos no trânsito e demoram a chegar em casa.A gente conversa pouco, quase não se vê...Ontem eu falei mais com o papai pelo computador que em casa. Quando ele chegou eu já estava dormindo.
- Sei, Lú, mas daí a morarmos no sítio?
- Pelo menos lá é casa, mãe. É sossegado. Apartamento não é a mesma coisa. Quando a gente morava em casa era bem melhor. Tinha espaço, plantas, quintal, e você plantava todos os temperos, lembra? Aqui não tem espaço nem para as crianças menores brincarem... E a gente, fica onde? De repente, o parque mais próximo, só dá pra ir de carro... As árvores das ruas estão cheias de óleo, fuligem, poeira, gasolina, não dá pra subir nelas...
- Gatinha... Muito legal morar em casa, mas além de não ser seguro, dá trabalho. Casas precisam de muita manutenção. Aqui no prédio a gente paga o condomínio e o pessoal cuida. Eu e seu pai não temos mais esse tempo todo. O tempo que temos, trabalhamos.
- Tá legal, mãe, trabalham, mas não têm liberdade nem tempo. Parece que estão presos, já reparou? As famílias dos meus amigos também vivem presas. Ou estão nos carros ou nos apartamentos... As mães deles são que nem você. Chegam do trabalho e ficam presas na pia... Depois ficam presas nas novelas com as avós deles... Sabe, eu vejo todo mundo gastando tempo com as coisas, mas não com as pessoas...Aí eu fico pensando: com é que lá no sítio a vovó passa o dia na horta? Deve cansar. Ela está velhinha... Mas, fala sério, eles comem bem pra caramba e conversam muito! E dormem cedo, quase não assistem TV e sempre têm tempo para ficar com a gente... Essas férias no sítio do vovô foram muito especiais. Eu descobri um monte de coisas. Percebi que as coisas de lá são mais soltas, mais legais, mais alegres... Só de ver os bichos soltos a gente se sente melhor... Só falta poder levar minha turma!
O pai, que até então, apenas escutava a conversa da sala veio para a mesa da cozinha...
- Espere aí, filha... Vocês passam férias lá todos os anos... Mas uma coisa é estar de férias, outra é morar... A nossa vida é aqui!
- E lá é aquele vidão, né pai? Fala sério! A vida é lá, pai. Aqui a gente não vive!
- Bom, filha... Não existe um jeito certo de viver. Quando você for dona do seu nariz vai morar onde e como quiser, mas agora não temos como sair daqui. Tudo custa dinheiro e precisamos trabalhar para sustentar nossas vidas.
- Eu sei disso, pai... Tanto trabalham que não têm tempo para nada... E quando vamos ao sítio ficamos todos juntos. Eu volto pra cá triste, toda vez... Fala sério, eu volto por causa da escola, senão ficava lá... Sei lá, pai... Eu tô me sentindo presa... Aqui está todo mundo preso... Eu olho as lojas e parece que as coisas vivem presas nas vitrines. Os cachorros vivem presos nas coleiras. Os passarinhos presos nas gaiolas. Os gatos presos aos sofás. Os zeladores presos nas guaritas. Os professores presos nas salas de aula. O pessoal dos bancos preso nos caixas e o resto preso nas filas. Os jornaleiros ficam presos às bancas. E na padaria, os meninos ficam presos dentro do balcão o dia todo...
- Mas filha...
- É isso mesmo, pai... Eu queria outro jeito da gente viver.
- Filhote... Para morarmos melhor precisamos mudar muitas coisas. Ou ganhamos mais dinheiro para ir para um apartamento maior, ou saímos da cidade, mas isso exige uma mudança enorme em nossas vidas.
- Então vamos morar no sítio!
- Filha, fora daqui é mais difícil ganhar dinheiro!
- A gente gasta menos. Pronto!
- Filha, você sabe que isso pode ser complicado para todos nós... Você toparia gastar menos? E a escola? E o trabalho? Seu pai precisa chegar cedo. Você já reclama que nunca temos tempo. Imagine se tivermos que fazer estrada?
- Mas mãe... Eu quero plantar as coisas, ter espaço, algum verde... Todos os dias a gente vê na internet que a saúde depende do que a gente come. O que a gente come aqui a gente nem sabe de onde vem!
- Filhinha... Uma coisa é a gente sonhar, outra é o que dá pra fazer... Nós não temos como manter nossa vida fora da cidade! Não dá!
- É, só que dá pra fazer um monte de coisas... Por que vocês têm tempo pra cuidar de carro, da casa, do escritório? Porque dá tempo de ficar no trânsito, de ir a shopping, restaurante, casa de amigos, e nunca têm tempo pra ficar com a gente? Por que o dinheiro dá pra pagar todo mundo e a gente não sai de casa?
- Como assim, Lúcia?
- É pai... A gente fala que vai fazer e não faz... Vocês dois querem viajar sozinhos desde que me entendo por gente e não vão... Vocês dizem que a natureza é o máximo e ficam aí, vendo TV... Vocês dizem que amam os filhos, mas não têm tempo... A gente vê todo mundo dizendo que quer uma vida melhor, falando em amor e paz, só que meia hora depois tá todo mundo buzinando lá embaixo... Todo mundo brigando por causa de uma vaga para estacionar... Aí ficam falando em salvar a Terra... Mas as pessoas fumam, jogam cigarros pela janela do carro, trazem um milhão de sacos de plástico do supermercado, consomem um monte de coisas que fazem mal... Compram uma montanha de comidas ruins em embalagens poluentes... Falam que são ecológicos e comem carne, bebem que nem uns doidos, vivem fazendo barulho, estourando bombas... Depois reclamam de poluição sonora... Sei lá... Acho que eu é que sou maluca e não entendo! Vocês sempre falaram em curtir a natureza... Sempre levaram a gente à praia, ao sítio... E agora querem ficar aqui?
- Sabe, filha... Quando eu era jovem queria morar na praia... Sabe quando desisti? Quando entendi que não adianta mudar de lugar e levar os problemas com a gente. Acho que podemos dar um jeito nisso, tentar melhorar as coisas aqui mesmo...
- Mãe, dar jeito como? Tá todo mundo correndo o tempo todo. Ninguém para nem pra pensar!
- Lulu... Entendi o que você está sentido. Já passei por isso... A gente tem que começar por alguma coisa. Eu entendi que sente falta da gente. Nós também sentimos. E acho que podemos fazer algumas escolhas para ficarmos mais tempo juntos... Só que você e seu irmão também precisam repensar os hábitos de vocês... Podemos pensar juntos na alimentação, de um jeito mais saudável e, quem sabe, trazer mais verduras, frutas e legumes do sítio para preparar aqui. Que tal? Mas vocês vêm para a cozinha!
-Ah, mãe... Não é a mesma coisa...
- Mas por que é que deveria ser a mesma coisa? Será que não podemos melhorar o que temos? Filha... Essa é nossa realidade. Nossa vida está aqui. Não adianta sair dela. Acho que devemos lutar para mudar o que temos, não inventar mais problemas. Não temos como sustentar uma vida lá e outra aqui... Eu tenho uma idéia...
- Que idéia, mãe?
- Li numa revista um artigo sobre pessoas que transformaram seus apartamentos em verdadeiros jardins. Tem gente plantando comida em casa, sabia?
- Mas no apartamento?
- Claro! Sempre tem um canto pra plantar alguma coisa num caixote, que seja um tempero ou uma erva medicinal pra fazer chá... E faz um bem ter plantas em casa!
- Mas mãe... Como é que a gente vai cuidar disso aqui, no décimo andar?
- Se fosse no sítio você não ia cuidar? É questão de querer. Não adianta irmos para o sítio do seu avô e levar a cidade pra lá. Levar nosso jeito de viver pro sítio não resolve nada. É capaz de estragar o sítio com tantas coisas. Imaginou?
- Mãe... Eu acho que temos coisas demais. E é por isso que não dá tempo da gente ficar junto, porque as coisas comem o tempo.
- Verdade, filha... Vou começar por doar aquelas coisas que estão no quartinho lá atrás. Podemos colocar umas prateleiras aqui na área de serviço... Vamos criar nossa hortinha e cuidamos dela juntos... Podemos usar a varanda também e, ao invés de plantas só pra decorar, plantar algo que dê pra comer... Se der certo, podemos levar a idéia para os vizinhos... Não temos como nos livrar de todos os problemas, mas podemos dar um jeito de viver melhor aqui mesmo...
- Sei não, mãe... Aqui no prédio?
- É, gatinha, aqui mesmo! Sabe que alguns condomínios estão criando hortas nas áreas comuns? E dá super certo, porque todo mundo cuida um pouco...
- Pai, dá pra cortar umas garrafas de refri?
- Corto, sim, filha. E tem um monte de embalagens limpas que também podemos usar. É só cortar, fazer uns furos, colocar terra e plantar... A janela lá de trás é grande, vai ter luz e vento de sobra! Vamos trazer terra do sítio, que tal?
- Boa idéia, pai!
- Pronto Lulu... E já que você nos convenceu a parar com os refrigerantes, você vai procurar as garrafas, está certo?
- Tá bom, mãe!
O que a mãe de Lúcia propôs foi um jeito de pensar em todo o planeta a partir de uma ação pequena, mas é assim que as coisas começam a mudar. A partir de pequenas atitudes, pequenas mudanças de hábito na casa e na consciência de cada um...
Não demora, muitas pessoas que querem sair das grandes cidades vão perceber que o que querem mesmo é mais contato com a natureza, consigo mesmas e outras pessoas. E para isso, não precisam criar outras cidades em lugares preservados nem se esconder em condomínios fechados... Precisam mesmo melhorar o dia-a-dia de suas cidades, de sua casa, em suas ruas e espaços públicos.
Importante mesmo é que cada um sinta que pertence ao lugar onde mora e que cuide deste lugar como seu!
A festa até que estava animada, mas Marília ficou bastante tempo na varanda...
Olhou para mata, curtiu os passarinhos e acabou entrando.
Brincou por um tempo, conversou, viu um pouco de televisão com as amigas e voltou para a varanda.
Mas não conseguiu ficar lá muito tempo porque estava com fome.
No meio de um jogo, Denise deu por falta da amiga Marília e foi procurá-la.
Na cozinha, encontrou a mãe do Thiago -- o aniversariante -- e perguntou: - Dona Júlia, viu a Marília?
- Marília, a aluna nova? Olha, a última vez que a vi foi aqui. Ela tomou um copo d’água e saiu. Por quê?
- Porque está faltando um na brincadeira e quero que ela entre... A senhora sabe que ela não é normal?
- Como assim, não é normal?
- Ah, tipo assim... Ela não come doce, não toma refrigerante, não come coxinha... Sei lá... Ela é legal, mas acho que não bate bem da cabeça!
- Dê... Eu não sabia disso. Thiago me avisou em cima da hora e não consegui falar com a mãe dela... Se a encontrar, diga que quero conversar com ela. A essa hora deve estar com fome!
Enquanto isso, Marília havia voltado à varanda, muito interessada nos passarinhos que se deliciavam com pedaços de frutas postas numa árvore... Ficou contente porque em sua casa fazia o mesmo com as cascas e pequenos pedaços de frutas que deixava na janela...
Hábitos são retratos muito interessantes da diversidade, mostram que as pessoas são diferentes... Que ninguém é normal!
Claro que a maioria estranha hábitos diferentes. Mas estranhar não quer dizer excluir... Bom mesmo é aprender com o que é diferente!
Não existe um jeito certo ou errado de fazer as coisas. Existe o jeito de cada um... E assim, normal é a gente se aceitar!
Enquanto cuidava dos últimos preparativos do parabéns, Dona Júlia pensava na menina que não comia açúcar... E concluiu: - é verdade... Cada um tem o direito de ser como é, acreditar no que acredita e fazer suas escolhas...
Marília vinha para a sala, mas teve que se desviar de Pedro e Ivo que brigavam:
- Eu não gosto de olho de sogra!
- Problema seu. Esse brigadeiro é meu! Dá aqui!
- É meu. Você come olho de sogra! Dá! Dá!
Os dois já estavam quase se pegando quando Dona Júlia irrompeu pela sala com o bolo, chamando a turma para a cantoria...
Cada um pegou o doce que pôde e foram se juntar aos demais.
Ao redor da mesa todos cantavam parabéns, doidinhos para comer bolo!
Marília também estava contente, cantando alto e batendo palmas.
Pic-pic pra lá, pic-pic pra cá… E Thiago apagou as velas rapidinho!
- Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!
Quase todo mundo servido...
Cortando o bolo, Dona Júlia ainda perguntou: - Marília, você não quer nem um pedacinho? Não? Na dúvida eu trouxe umas frutas para a mesa, se quiser...
Foi quando Ivo gritou: - Deixa ela, tia, ela é maluca. Ela não gosta de bolo! O pai dela é doidão e a mãe é hippie!
Foi uma gargalhada só ecoando pela casa.
Dona Júlia, preocupada com a situação, disse, olhando séria para o menino: - Ivo, ela tem o direito de comer ou não comer o que quiser. Não é o costume dela comer doces, pronto!
Nesse momento, Dona Júlia pensou: e se fosse o contrário? E se os meninos fossem os únicos consumidores de açúcar numa festa vegetariana? Será que eles cantariam assim animados? Então, perguntou: - Como você ia se sentir se a mesa fosse só de frutas e sucos?
E olhando para Marília, disse:
- Eu trouxe as frutas para quem não quiser bolo... Olhem: suco natural de manga, sem açúcar, tá? Quem quiser açúcar tem nesse pote... Se acabar o suco é só pedir: eu faço mais!
Marília não bebia refrigerantes, passou o resto da festa se deliciando com aquele suco...
Thiago disse: - que bom, sobra mais guaraná pra gente!
Então, Pedrinho arrematou: – Ih, tia... Na escola ela leva cenoura e maçã pra comer. Fica sozinha lá, bebendo suquinho azedo o recreio todo. Outro dia apareceu com umas sementes germinadas que pareciam uns bichinhos... Ninguém quer dividir o lanche com ela, não!
Enquanto as crianças riam... Marília fez uma careta bem irritada e disse: - a saúde é minha! Eu cuido de mim como eu achar melhor!... E dando de costas para os meninos, apanhou uma banana...
- Obrigada, Tia...
Passado o clima, Denise come bolo e conversa com Marília...
Marília diz: - quando tem festa em casa, minha mãe faz bolo de açúcar pra quem não come bolo de mel...
- Mas a Dona Júlia não sabia que você não come doce.
- Eu falei pro Thiago. Ele insistiu, disse que ia ser legal... Eu perguntei o que mais ia ter para comer... Ele não respondeu!
- Então, por que você veio?
- Porque eu gosto de festa e queria comemorar com o Thiago.
- Comemorar o quê? Você ficou na varanda quase o tempo todo!
- Eu gosto de festa, tá?
- Cadê a Andréia?
- Estava brincando ali agora mesmo. Ela foi pegar um refri...
Dona Júlia apareceu com um sanduíche de queijo e ofereceu a Marília.
- Queijo você come?
- Como sim, tia!
Marília começou a comer, aliviada, porque brincar com fome não tem graça... Se ela criou consciência e deixou de comer carne e açúcar, talvez fosse bom mesmo os outros se perguntarem: por que comem?
O que nenhum dos garotos percebeu é que ela não disse nada sobre a briga pelos doces nem acusou ninguém de maluco por comer açúcar. Pelo jeito ela tinha aprendido a lição da diversidade.
Dona Júlia ia perguntar se queria mais alguma coisa, mas falou:
- Desculpe, eu não sabia que você vinha, senão faria algo melhor. Todo mundo comeu churrasco, comeu os salgados... Achei que estivesse com fome.
- Estava sim...
Thiago se aproximou e disse: - mãe, também quero sanduíche!
- Mas filho, você comeu churrasco, comeu salgadinhos, comeu bolo... Eu fiz esse sanduíche para a Marília... Por que você não disse que ela é vegetariana?
- Não é vegetariana é ovo... Sei lá... Como é, Marília?
- Sou ovolactovegetariana!
- Ovo lá, isso aí, mãe...
- Ovolactovegetariana, Thiago... Ela come ovos, toma leite, come queijo e o resto é vegetariano: verduras, frutas, legumes... Não é isso, Marília?
- É. Meu pai que é vegetariano. Eu não!
- Ah... Entendi! Que bacana!... E, Marília... Você não sente falta de comer carne?
- Nem um pouco, Tia... Eu gosto, mas não como, porque eu gosto mais dos animais... E meu pai falou que é preciso derrubar as matas e espantar muitos bichos para criar gado. E que esses boizinhos que as pessoas matam para comer bebem muita água potável... E todo mundo sabe que precisamos poupar água!
- Puxa, Marília! Fico impressionada ao ver uma criança consciente como você.
- Mas todo mundo sabe disso, Tia... Não sou só eu... É que eu resolvi parar de comer carne. Minha mãe e minha avó brigaram tanto comigo, ufa!, mas eu parei!
- E aí, Thiago, você acha que o papai para de comer carne?
- Nunca! Ele adora churrasco!
- Eu penso em parar, sim, filho! Sabe, Marília, tudo isso são hábitos. A gente pode mudar se quiser... Acho que se você um dia quiser comer carne, não haverá problemas também... Não é preciso ser tão radical!
- É... De vez em quando, quando meu avô faz churrasco eu como um pouquinho, mas com muita salada!
- Viu só, Thi... Seu pai gosta tanto de carne... Podia variar um pouco!
- Meu pai ama carne! Só que o médico disse pra ele comer pouco, porque tá com gota...
- Meu pai também adora, Thiago, mas não come. Ele disse que isso é escolha. A gente pode deixar de fazer algumas das coisas que gosta para melhorar a vida de todos e a da gente também.
- Verdade, Marília!... E o açúcar, você não sente falta?
E Marília se perguntava... Se o pai dele não pode comer carne, por que come?
- Nadinha, Tia Júlia. As frutas são doces. E tem mel de abelhas que adoça tudo do mesmo jeito... Açúcar é sempre demais, é o que meu pai diz! Dá cárie, engorda e faz mal à saúde!
- E na escola, como fica?
- Eu levo minha comida de casa... E quando dá vontade, como um pão de queijo da Tia Ana!
- Entendi... E na escola há mais crianças como você?
- Nunca vi... Acho que sou a única...
- Não tem não, mãe... É só ela que é esquisita!
- Mas filho, ela não é esquisita. Só pensa diferente e a gente precisa respeitar quem é diferente. Além do mais, Marília é uma garota legal... Eu adoraria ter uma amiga como ela!
Então, Dona Júlia deixou as crianças brincando, e foi para a cozinha... Voltou com uma linda salada de frutas sobre a qual brilhava a chama de uma vela.
Jir era um garoto comum. Alegre e criativo. Esperto como todas as crianças... Diferente como todas as pessoas... Especial como todos os seres vivos...
Vibrava com suas descobertas. Mergulhava nos pequenos mundos que encontrava. Mundos em que quase todo mundo pode reparar: mas só crianças entram com facilidade.
Reparava em tudo. E cada uma dessas coisas guardava mais e mais descobertas, um mundo dentro do outro...
Uma fila de minúsculas formigas no armário, embaixo da pia da cozinha. Os tatuzinhos sob as pedras, no canteiro no jardim. A tinta descascada ao pé do muro. A rachadura no piso de cimento, as plantinhas brotando dali, e outro formigueiro parecido com um pequeno vulcão.
A escuridão, o cheiro de cera e o aspirador embaixo da escada, na casa da avó. Os grãos de areia no tapete do porta-malas do carro. As infinitas coisas guardadas no gaveteiro da cozinha...
Os desenhos formados na casca de uma árvore. O vento ondulando uma poça de água da chuva. Um vale entre as pedras, no cantão da praia,...
Ele entrava inteiro no que via. E queria ver tudo. Sentir tudo. Entender tudo...
Jir descobriu muitas coisas brincando na areia...
Um dia, quando seu pai reformava a casa, Jir descobriu que ali havia uma areia tão boa de brincar quanto a da praia...
E tão boa de brincar quanto a terra escura dos canteiros...
E boa de brincar como a terra vermelha do sítio...
Jir percebeu muito cedo que não importava qual a areia ou a terra: interessante mesmo era a brincadeira...
Experimentar e aprender com coisas simples como água, terra, plantas, folhas secas, pedras é um grande prazer...
Sim, Jir tinha brinquedos em casa. Mas eram todos brinquedos de cidade. Brinquedos comprados. Brinquedos de plástico. Brinquedos de madeira. Brinquedos pintados. Brinquedos muito legais, mas não era ele que inventava!
O que ele gostava mesmo era de brincar fora de casa: cavar buracos, fazer pontes de terra com gravetos, construir caminhos com pedras, folhas, latas... Quando ia ao supermercado com a mãe, já ia imaginando brinquedos nas embalagens que via...
Quando ia para a praia, não era diferente. Eram castelos, rampas, túneis, torres, estradas, plantações, florestas... Ele construía verdadeiras cidades recicláveis que iam se transformando, crescendo, diminuindo, mudando...
Era uma eterna brincadeira que fazia o tempo desaparecer enquanto ele ia aprendendo que tudo mudava: nada é para sempre...
Jir se perguntou se podia fazer seus castelos de cimento, mas não levou a idéia adiante.
Cimento, as crianças que viessem depois, não poderiam transformar. Não poderiam reinventar, nem mudar. Teriam que ficar com o castelo do jeito que foi feito... E a gente sabe que a brincadeira nunca vai cansar ninguém... Mas os brinquedos acabam cansando.
Os amigos de Jir tinham muitos brinquedos também. Brinquedos de que ele até gostava... Mas não fazia questão, não... Claro que gostava dos brinquedos, mas o que ele adorava eram as brincadeiras...
Por isso mesmo, Jir gostava das coisas simples, maleáveis. Coisas que pudessem se transformar quando fosse preciso. Coisas que tomassem a forma que ele inventasse; como e quando ele quisesse...
Numa tarde de verão, Jir construiu um castelo enorme na areia da praia...
Enorme mesmo! Tão alto, tão real, tão forte que qualquer um que visse, ia querer entrar.
Quando parecia estar pronto, ele saltou sobre a muralha e levantou a ponte que fez sobre o fosso para esperar a maré subir...
Puxa... Ficou legal por dentro também!
E voltou ao trabalho! Trabalho de criança é esse mesmo, brincar!
Imaginando-se pelos túneis e degraus do castelo, Jir encontrou conchas e cascas de mariscos. Pedaços de madeira que pareciam sobras de um naufrágio...
Cavou, cavou, cavou... Até formar um enorme salão no centro do castelo...
Em toda a volta, uma parede de onde podia ver o mar, a praia e as árvores...
Juntando conchas, madeira e tampas de garrafas, decorou as paredes e fez um trono onde, sentado como se fosse mesmo um rei, pôs o baldinho na cabeça e disse:
-- Eu sou o Rei Jir! E este é meu castelo!
-- Sou poderoso! Eu sou o Rei Jir!
-- Eu sou o rei Jir!
-- É... Jir! O rei mais triste do mundo!
Suas palavras iam se misturando ao som do vento e do mar, lá fora... E naquele aconchego, abrigado no interior de sua fortaleza, assobiava, sempre cavando, buscando novas descobertas...
Depois de trabalhar muito -- já disse que brincar é o trabalho das crianças? -- Subiu à torre e olhou o mar...
O boné colorido virou uma bandeira presa a um graveto...
Latas e potes de plástico viraram canhões apontados para o mar...
-- Este é o castelo do Rei Jir!
A tarde estava quente! Um vento delicioso de verão. Jir ia buscar água no mar e voltava para o interior de seu castelo...
Desceu ao salão. Sentado em seu trono de areia, pensou:
-- O que mais?
Esvaziou a coroa e a colocou novamente na cabeça...
Perguntou : -- onde está o sábio desse castelo? Não tem sábio aqui? Todo rei tem um sábio por perto... Onde está o sábio?
De repente, uma das paredes do castelo caiu e uma Maria Farinha entrou pelo salão:
Jir ficou assustado!
-- Quem é você?
-- Eu sou uma Maria Farinha!
-- Ouvi uma voz ecoando pelo meu túnel. Então você que é o tal rei?
Jir pareceu assustado e recuou...
-- Calma! Não vou machucar você!
-- Sou o Rei Jir! Sou rei deste castelo! Mas eu esperava um sábio. Um homem velho, careca ou de barbas brancas...
-- Pois é... E eu esperava um rei justo! Você não acha legal me conhecer melhor antes de achar que só os que parecem sábios podem ser sábios? Olha que o mundo está cheio de velhos de barba branca que não aprenderam muita coisa... São pessoas que não sabem a diferença entre envelhecer e evoluir... E muitos deles mandam em nossas vidas! Vai ver é por isso que o mundo está assim...
Acho que é por isso que o mar anda tão poluído e a natureza tão assustada. Olha quanto lixo! Tem gente que acha que só precisa pensar em si...
Eles ainda não entenderam que as crianças que ainda vão nascer e mesmo você e seus amigos vão querer um mundo legal para viver...
Tudo que foi feito ao nosso planeta foi feito por pessoas que tinham razões e motivos para fazer. Todos dizendo que são sábios... Imagine só, se cada um fizer o que quer sem pensar no futuro, como é que fica?
Menino, você já reparou como tem gente nesse mundo querendo parecer o que não é?
Jir balançou a cabeça...
-- Mas... Você não se parece com sábio algum!
-- E você, parece Rei? E as corujas, lá são sábias como dizem? E essa conversa de rei mais triste do mundo? Onde já se viu, Rei mais triste do mundo!?
-- Não quis dizer que você não é sábia... Só que achei estranho uma Maria Farinha ser conselheira.
-- Pois é... E se fosse um tatu ou um pé de couve, tinha que ter cara de conselheiro? Mas não se preocupe. Entendi o que sentiu. Mesmo assim, quero que pense: por que a gente tem que ter “cara” disso ou daquilo? Cada um é como é!
Jir olhou fixo e disse:
-- Cada um é como é e sábios são sempre velhos!
-- Ih... Esse tipo de sábio está fora de moda. Isso era antes da diversidade. Os sábios de hoje andam por aí, sem uniforme. São sábios, mas não têm mais a cara dos sábios de antigamente... Na verdade, cada um tem sua sabedoria...
-- Mas como vou saber se você é sábia? Você parece um caranguejo. Aliás, é um caranguejo. E com esses olhões, parece que está mais assustada que eu!
--Você é criança. Eu confio em crianças. Vou lhe contar um segredo: a gente não sabe o que ou outro sabe. Nunca!
-- Não?
-- Não, rapaz! Mesmo quando a gente conhece bem as pessoas, o que vai dentro da cabeça delas, só elas sabem!
Jir concordou, mas quando ia falar a Maria Farinha falou:
-- Então, que história é essa de rei triste? A Maria Farinha sorriu, olhou pra cima e continuou: --Vivendo e aprendendo... Nunca pensei que houvesse rei triste! Além do mais, como é que um rei triste faz um castelo legal desses?
-- Não vou te contar nada!
-- Como não? Não era por isso que queria um sábio no seu castelo? Ah...Uma pena que as crianças andem tão desconfiadas ... Olha só... Eu estava aqui cavando meu túnel e de repente você aparece, constrói um trono, senta aí e diz que é rei... Legal... Eu topei a brincadeira... Aí, diz que é o rei mais triste do mundo... Tá, eu até entendi que está triste, mas quero saber por quê?! Então, bem que você pode confiar em mim, não é?
-- Mas...
-- Mas, o quê? Você pediu sábio. Sábio está aqui. Em que posso ajudá-lo?
-- Ah... Nada não...
-- Como nada não? Está querendo me enrolar? Você pediu sabedoria. Eu estou aqui. Agora... Diga, o que quer saber!
-- Não sei... Esqueci!
A Maria farinha deu de costas impaciente e retornou à escavação de seu túnel. Ia sumindo na areia quando Jir disse:
-- Espere!
-- Estou esperando... Cavando devagar pra ver se você fala... Senão vou cuidar dos meus túneis.
-- É que...
A Maria Farinha fechou as garras e olhou nos olhos de Jir.
-- Diga, reizinho! Reizinho triste... Qual seu nome mesmo?
-- Jir!
-- Que nome diferente!
-- É, sim... Mas é como me chamam.
-- Então, Jir... O que é que está pegando?
-- Eu... Não sei se devo dizer.
-- Ih... Já vi que tem coisa aí!
-- É, tem. Mas eu não sei como dizer...
-- Bem... A gente precisa aprender a falar o que sente, sabia? Se a gente não for capaz de dizer o que sente, pensa ou quer, não adianta sabedoria nenhuma. Nem de escola nem de casa... É bom que as coisas sejam assim... O que a gente sente deve ser como o que a gente pensa e quer!
-- Assim, como? Complicada sua sabedoria!
-- Calma... É assim... Há coisas que a gente faz sem vontade.Ou tem vontade, mas não acredita. Ou nem faz, fica só pensando e sentindo... Aí não funciona! Por isso, digo que precisamos aprender a expressar as coisas e entender o que realmente queremos... Quando o que a gente sente, pensa e quer são a mesma coisa, as coisas caminham bem!
-- Como assim?
-- Assim mesmo... Quando a gente faz uma coisa, pensa a mesma coisa, gosta daquilo e consegue fazer... É o melhor, parece que as coisas ficam mais fáceis.
-- Acho que entendi... Quando a gente faz contra a vontade é ruim! É isso?Acho que é por isso que tem umas brincadeiras que nunca dão certo. É porque a gente brinca sem querer brincar?
-- É mais ou menos isso... Mas brincar é sempre bom... Isso é que acho legal, deixar as crianças brincarem, porque é quando elas sentem, pensam e fazem exatamente o que querem... Por isso, digo que os adultos precisam aprender com as crianças também. E para isso, basta observarem as crianças sem julgar... Porque crianças fazem as coisas por inteiro, e não gostam de largar as coisas sem terminar, não...
-- Como assim?
-- Como assim que eu perguntei primeiro: e eu perguntei por que o rei deste castelo é triste!?
Jir olhou para o mar por um buraco do castelo e suspirou... -- Isso eu sei... Sou o rei mais triste do mundo! E com um olhar desanimado, jogou o balde no chão.
-- Isso foi a primeira coisa que ouvi... Já estou cansado de saber. Mas por quê? Diga isso e mais uma coisa: quem te ensinou a fazer castelo de areia?
-- Ele, meu pai. Mas não faz mais. Agora ele não pode mais fazer. Meu pai não tem tempo de brincar comigo. Está sempre correndo. Sempre ocupado. Sempre com alguma coisa mais importante que eu pra cuidar.
--Ah... Entendo! Isso é muito difícil pra você, não?
-- Se é! Puxa, como é difícil. É o carro pra consertar. O cliente pra visitar. O trabalho. O futebol. O jornal. Sempre tem alguma coisa mais importante que eu.
-- Entendi. Mas você já disse isso pra ele?
-- Não.
-- E como ele vai saber? Só se for adivinho. E se ele é adivinho, pra que você quer ser rei? Pra que sábio?
-- Ele não é adivinho.
-- Então, como ele vai saber que você está triste?
-- Não sei...
E chorou muito, até que a Maria Farinha empurrou um pouco de areia para o meio da sala e preparou um lugar para ele.
-- Sente aqui... Eu quero lhe dizer umas coisas... Seu pai trabalha porque precisa, não é?
-- Acho que é. Ele diz isso o tempo todo. E diz que é para me dar uma vida boa.
-- Será que ele sabe o que você quer?
-- Eu só quero que ele esteja aqui comigo. Não precisa mais nada! Ele diz que vai me dar todos os brinquedos que eu quiser. Só que eu quero ele brincando comigo.
-- Mas como faz para ele brincar se tem que trabalhar?
-- É por isso que sou o rei mais triste do mundo! Porque não adianta falar. Eu já ouvi essa conversa um monte de vezes. Eles ficam falando disso lá em casa...
-- Sei. E você, não diz nada?
-- Não!
-- Por quê?
-- Porque tenho medo deles não entenderem.
-- Mas se não disser, não vão entender mesmo... Faça o seguinte... Como rei deste castelo você deve comunicar aos seus pais que está convocando a presença deles! Que quer os brinquedos, mas quer as brincadeiras com eles. E se tiver que escolher entre eles e os brinquedos prefere brincar com eles... Diga a eles o que sente, o que pensa e o que quer!
-- Como faço isso?
-- Na hora você vai saber. Mas tenha certeza de que sem dizer, nada vai mudar. Pode pensar, sentir e querer, sem falar, não muda.
-- E se eles não gostarem?
-- Ué... Quando a gente tenta, pode conseguir, ou não! Tente. E esteja disposto a negociar.
-- Como assim?
-- Ué... Vou ter que explicar tudo?... Se ele disser que não tem tempo porque precisa disso e daquilo, pergunte do que realmente ele precisa e diga, de coração, o que você realmente precisa.
-- Se ele brincasse comigo na praia eu já ia adorar. Ele me ensinou a fazer castelos e sumiu: nunca mais!
-- Sim, entendo. Mas se você quer que ele aceite sua necessidade, terá que compreender as dele... Muitos pais têm certeza de fazerem o melhor para os filhos conseguindo dinheiro para tudo que se pode comprar, mas esquecem que podemos até comprar brinquedos, mas não temos como comprar a brincadeira, a presença, o prazer de estar juntos... Criança nenhuma do mundo brinca por dinheiro. Brinca por que quer, porque sente, porque brincar é sua forma de agir e se expressar...
-- Será que você consegue conversar com eles?
-- Vou tentar... Vou tentar!
-- Eles precisam entender que o seu futuro e o futuro do mundo serão melhores se você tiver a presença carinhosa deles agora... Por isso nós, seres da natureza, estamos tão animados com as conversas sobre sustentabilidade que temos ouvido... E quando lhe falarem em sustentabilidade, não pense que é só de sustentar o dinheiro que estão falando... É agora que preparamos pessoas legais para o futuro. E eu tenho certeza que você vai ser um pai muito legal!
Então, pela fresta na muralha do castelo a luz do sol se apagou. Já era final de tarde e tudo ficou alaranjado no horizonte...
Jir ouviu a mãe chamando para ir embora, saiu do castelo e nem teve tempo de se despedir de sua sábia amiga...